Canto do leitor

CANTO DO LEITOR – SIMPLESMENTE ASSIM

Fael Lima : 25 de fevereiro de 2014 0:56 : Canto do Leitor 25 de fevereiro de 2014 0:56

Imagem: Internet

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Enviado pelo leitor Henrique Gonçalves, de Governador Valadares

Explicar?

Explicar o que é inexplicável não é possível e não faz sentido.

O sentimento que passa aqui dentro não tem razão.

Todos os dias eu me pergunto o porquê disso.

Amo, vivo, sofro, tenho raiva, gosto, grito, respiro, tenho sede.

Não consigo entender tanta paixão assim.

Esse amor e ódio incontrolável e estranho que essa relação causa.

Isto não seria bom pra mim se não fosse algo que eu amo muito, mais que as dores que sofro.

Sofrer é uma questão lógica, é obvio, né?

Te amei, te amo e sempre vou te amar!

Galo pra sempre! Que seja eterno enquanto dure!

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VOOU NO HORTO…

Fael Lima : 17 de janeiro de 2014 12:51 : Canto do Leitor 17 de janeiro de 2014 12:51

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O leitor Hugo Cordeiro nos enviou o desenho de como o caldeirão é visto de cima.

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CARTA ABERTA AOS ATLETICANOS QUE ESTARÃO EM MARROCOS

Fael Lima : 9 de dezembro de 2013 0:37 : Canto do Leitor 9 de dezembro de 2013 0:37

Foto: Everaldo Vilela

Foto: Everaldo Vilela

Texto enviado pelo leitor Gustavo Dayrell

Chegou a hora, o grande momento que todos nós sonhávamos, que alguns nem esperavam e que muitos sequer imaginavam que pudesse acontecer para esta geração tão sofrida.

E você vai estar lá, vivenciando o maior dos capítulos, vendo a história se passar diante dos seus olhos.

Lá estaremos eu, você e outros milhares dessa família, dentre eles, aquele que chegou por último e que tanto sofremos com a possibilidade dele não estar lá, aquele outro mais alto que sempre que precisamos, estava lá, aquele que conhecemos há mais tempo, sempre usando a camisa número nove, aquele gênio que o mundo inteiro reverencia. Aquele baixinho. Quem mais encarnou o nosso espírito de raça? Aquele predestinado que quando aparece lá na frente, é para decidir, aquele santo que todos nós vamos ser devotos para sempre.

E sabe qual a diferença desses últimos citados para nós? Basicamente duas – Uma é que fazemos parte dessa família há muito mais tempo que eles e a outra é que eles vão lutar em um setor diferente do nosso, dentro daquelas linhas brancas. Só isso!

Porque a responsabilidade é a mesma, temos o mesmo dever de fazer o que for possível para voltarmos de lá consagrados. Viva esse momento, faça a diferença, confiem em nós, repasse a energia de milhões de pessoas que não estarão lá e quando o jogo começar, faça-se valer por 2, 3, 10 torcedores. Cante como nunca cantou, grite o mais alto que puder, mostre pra aqueles onze caras a importância que isso tem para nós, mostre para o mundo a força que a Massa tem.

Essa família já mostrou do que é capaz dentro de campo e fora dele já fez a diferença, seja na porta de hotel, no aeroporto, nas ruas do Horto, dentro da nossa casa ou fora dela também. E o nosso amigo lá de cima também já mostrou que está do nosso lado, escrevendo o melhor dos roteiros para chegarmos até aqui.

Que tenhamos todos uma viagem inesquecível, pense em tudo que você viveu e sonhou até hoje quando estiver lá. E sempre tenha em mente aquele famoso mantra, que um sábio homem dentuço declamou neste ano – “Aqui é Galo, porra!” (GAÚCHO; Ronaldinho, 2013).

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CANTO DO LEITOR – LUTAR, LUTAR, LUTAR

Fael Lima : 22 de novembro de 2013 16:46 : Canto do Leitor 22 de novembro de 2013 16:46

ENVIADO PELA LEITORA PAULA MATIAS

Que sentimento é esse? Não me peçam para explicar. Nem eu mesma sei o que é, e até

Imagem: Internet

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para defini-lo é complicado, posso dizer, praticamente impossível. Fiquei olhando para a tela em branco do computador, pensando em como começar a explicar o que eu sinto por você, meu Galo. É amor, com certeza é amor, mas aquele que ultrapassa qualquer limite e qualquer razão e chega a beirar a insanidade. Sim, beira a loucura, por que não?! Você já se sentiu assim? Aquela sensação louca de se sentir vivo, nervoso e calmo ao mesmo tempo. Vontade simultânea de rir e chorar.

Eu te amei, GALO, te amei nos momentos mais críticos. Te amei quando achava que não teria mais saída. Mas como sempre, o amor nos revigora, nos faz enxergar além do que está ao nosso alcance. E hoje estamos mais fortes do que nunca, prontos para o que der e vier.

Somos todos insanos, todos nós, Atleticanos, centenas, milhares, milhões de corações apaixonados batendo no mesmo ritmo, milhões de vozes unidas gritando pedindo para você LUTAR, milhões de braços sincronizados formando a mais bela e mais emocionante coreografia do mundo. Eu acredito em você GALO, nós nunca estivemos tão perto, tão focados.

Alguns dizem que é futilidade, outros dizem ‘calma, é só um esporte’. Como são tolos, não sabem o que estão perdendo. Não sabem a intensidade das emoções que isso provoca a nós, atleticanos. Então que me perdoem, mas eu amo viver essa loucura sem cura!

Como já disse somos milhões de insanos, doentes por esse amor, porém somos apenas torcedores. Precisamos de vocês jogadores, precisamos de você GALO. Vamos fazer assim, daremos o nosso melhor na arquibancada, e fora dela, e vocês farão o melhor dentro de campo. E não se preocupe, estaremos sempre ao seu lado, GALO, não importa o que acontecer.

A parte mais bonita da nossa história está apenas começando a ser escrita. Tenho certeza que o nosso futuro será brilhante.

VamuGalo, a guerra já começou faz tempo e faltam só mais três batalhas, e por favor jogadores, joguem e lutem por nós!

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CANTO DO LEITOR – MARROCOS É CONSEQUÊNCIA

Fael Lima : 14 de novembro de 2013 14:35 : Canto do Leitor 14 de novembro de 2013 14:35

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Enviado pelo leitor Leandro Pedrosa

Era 1992, e fiquei frente a minha primeira difícil escolha como Atleticano, uma camisa do João Leite ou do Sérgio Araújo. Essa difícil missão de escolher entre qual ídolo vestir me emocionava. Ainda de pano, eu ganhava nesse ano uma daquelas camisas que vinham em um kit para costurar o número nas costas. Era um dos presentes mais valiosos da época e um dos mais valiosos que eu teria na vida.

Mesmo tão pequeno o Galo já motivava cada segundo do meu dia, definia meu humor, minha motivação. Entrando no Mineirão, eu contava cada degrau, me atentava ao hino e a cada canto. Eu queria todas as cores e ao mesmo tempo só queria duas, o Preto e o Branco, do meu, do nosso Clube Atlético Mineiro. A magia era incrível e nunca se acabou para falar a verdade, porém quando criança tudo era construído em minha mente como a primeira vez. A primeira defesa espetacular, o primeiro grito de gol, o primeiro título visto. Nunca quis ser só mais um torcedor, porque sempre acreditei que torcer pelo Clube Atlético Mineiro é e sempre será uma honra, e é dever fazê-lo bem feito. Eu enfrentava qualquer crítica e sempre conseguia convencer a todos de que aquilo era maior do que eu, porque o Galo para mim era uma religião.

Os anos foram se passando e a cada dia essa paixão foi aumentando. Família, amigos, todos eles me enxergavam como eu queria, vinham em mim à alma de um verdadeiro atleticano. Daqueles que na segunda começava a sonhar na expectativa do jogo de domingo. Eu não me importava com nada, só queria ver o Galo e apoiá-lo em qualquer situação, eu queria mais de mim para ser mais para o meu time. Acreditava que aos 45 minutos do segundo tempo o meu grito motivaria uma jogada que resultaria em gol, e assim é. Como eu milhões de outros Atleticanos acreditam no poder do seu grito e faz com que o impossível seja um detalhe.

Quando eu lia durante a Libertadores, “Não é milagre, é Clube Atlético Mineiro”, ali eu me encontrava, Deus ajuda e muito, e ele nos ajudou a gritar mais alto, ele nos ajudou a não desistir nunca e o “Eu Acredito”, se tornou instrumento de fé para muitos. Vitor me fez voltar à infância, aquele garotinho que ainda sem referências, conhecia alguém chamado João Leite, capaz de tantos feitos. Vitor me devolveu a valentia daquele garoto que sempre se gloriou em ver as arquibancadas lotadas, que não reprimia suas lágrimas de emoção, que tremia de nervosismo a cada vez que chegava perto de Éder Aleixo. Enfim, o Vitor me fez acreditar mais uma vez que apesar do Atlético ter conquistado esse ano, um dos títulos mais importantes da sua história, Marrocos não será maior do que nada que já vivi com e por esse time, Marrocos pode agregar e muito, porém não me faz nem mais, nem menos atleticano. Torcer em Marrocos para mim será consequência de um amor cultivado por anos.

Eu sou atleticano de raiz. Eu sou aquele menino da fila do ingresso de mãos dadas com o pai, eu sou aquele que abraçava um desconhecido na hora do gol por sentir nele um irmão de sangue, eu sou o do ônibus lotado, o do grito de gol aos 48, aquele que corria atrás do ônibus do time, eu sou você, porque na verdade nós somos um só, uma legião de um só coração que bate forte pelo CLUBE ATLÉTICO MINEIRO.

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CANTO DO LEITOR – O MEU CLUBE ATLÉTICO MINEIRO.

Fael Lima : 9 de novembro de 2013 15:38 : Canto do Leitor 9 de novembro de 2013 15:38

Foto: Daniel Teobaldo (Soul Galo)

Foto: Daniel Teobaldo (Soul Galo)

Enviado pelo leitor Ricardo de Carvalho Siqueira

Tentei por vezes escrever algo sobre o Galo, mas só agora tenho em mente o quanto significa pra mim ter o ingresso de Atlético e Vasco do dia 27 de Novembro de 2005, também o ingresso de Atlético e Olimpia do dia 24 de Julho de 2013, e o quanto eu quero mostrar ao mundo inteiro, com orgulho, esses dois objetos “inanimados”, que emanam algo que me arrepia o corpo inteiro. Que me colocaram em momentos que cravaram fundo em mim sentimentos tão diversos, tão opostos, que só mesmo Deus pode explicar terem partido de um mesmo coração, de um mesmo ser, de mim. Eu não estive naquela final contra o São Paulo em 1977, quando o último pênalti subiu e nos fez tragicamente vice-campeões invictos; não presenciei o assalto da Libertadores de 1981 no jogo em Goiânia, contra o Flamengo; mas vivi a final de 1999, a queda de 2005, a ascensão em 2006 e tantos outros momentos com o Galo, tão intensamente, como se fosse eu um daqueles estudantes que em 25 de Março de 1908, no coreto do Parque Municipal, escreviam a primeira página da mais bela história do futebol.

Ainda não sei o que será de mim, pois, de certa forma, não sei o que está acontecendo, o que é esse momento de glória, redenção e PAZ que agora vivemos. Eu me acostumei a aguardar o próximo jogo desesperadamente, como se o próximo jogo fosse sempre o último, o mais importante, a última chance de alçar voo em direção ao céu. E então, sempre, no jogo seguinte ou ao final de mais um campeonato, a decepção, o voo havia partido em direção ao céu, movido pela esperança mais verdadeira e intensa de uma nação, mas insistia na chegada a um destino errado, o nada.

Agora a sensação é outra, sinto como se depois daquele momento, daquela final, que transpôs a meia-noite como se pretensiosamente reivindicasse para si dois dias na história, eu enfim entrasse de férias pela primeira vez na vida. Ainda que com essa sensação de poder agora desfrutar de suadas e merecidas férias, sei que como Atleticano isso só dura até logo mais, quando vem o próximo jogo e o coração e a alma clamam por um grito de GAAAAAAALOOOOOOOOO, assim que a bola estufa as redes.

E assim eu quero seguir, pois agora já tenho uma história bonita pra contar aos meus filhos, tal qual todas as outras que ao lado do Galo eu vivi, mas agora a história é outra, é diferente, agora a história tem final feliz; ela conta como nós Atleticanos torcemos a vida inteira contra o vento enquanto a camisa esteve estirada no varal durante a tempestade, e foram anos de tempestade. Até que, enfim, o vento perdeu.

EU ACREDITO! Mas, e daí? Isso pra mim não é novidade, eu nunca deixei de acreditar.

Ricardo de Carvalho Siqueira II, só mais um atleticano.

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CANTO DO LEITOR – E O VENTO PERDEU

Fael Lima : 26 de outubro de 2013 0:09 : Canto do Leitor 26 de outubro de 2013 0:09

Foto: Bruno Magalhães

Foto: Bruno Magalhães

Texto enviado pelo leitor Marcelo Alvarenga

O que poderiam significar 45, 90, 120 minutos na espera que já durava 42 anos? Quem disse que ainda fazíamos contas, que ainda sonhávamos com alguma glória maior do que já tínhamos obtido?

O atleticano havia aprendido a discutir sem ter argumentos, a torcer por uma camisa, a repetir piadas como “quem gosta de título é cartório” e outras bobagens mais. Era legal. Trazia prazer ver a cara de incrédulo dos simpáticos ao perceber que não conseguiam nos abalar falando dos muitos troféus expostos naquela sede.

Confesso que eu já não contava mais com algo que pudesse virar esse jogo. A graça estava ali, era torcer contra o vento, era remar contra a maré, sacou?

Mas aí vieram algumas coincidências que me deixaram confuso. Um presidente maluco, um treinador azarado, jogadores renegados, um estádio, um caldeirão, um verdadeiro cemitério.

O medo de acreditar e se decepcionar voltava. Mas por que não? Já tínhamos tentado de tudo, e até campeonato invicto conseguimos perder!

Tabús e clubes gigantes foram nos enfrentando e caindo. Um a um.

Nas arquibancadas era nítido que a Massa já não sabia o que tava acontecendo.  Chegou uma hora, que nada mais assustava ali no Horto. Podia vir o campeão do mundo, o rivalzinho da cidade, o “melhor elenco do brasil”…Caiu ali dentro, todo mundo sabia o que ia acontecer. E acontecia, não tinha erro…

Na libertadores não ia ser diferente, e provamos que não tem resultado ruim fora de casa em mata-mata. Traz pro caldeirão e aqui a gente da um jeito. Ganha nos pênaltis, defende pênalti aos 48, da baile no tri-campeão.

Vimos acontecer de tudo naquele campo. Vimos a história mudar, a maré virar.

Quiseram os Deuses do futebol que a atração principal fosse em outro palco.

Da logo dois gols de frente pra um time de tradição, tira esse time sortudo do campo deles, estraga o cenário. Agora sim, vamos ver se a história mudou mesmo.

E não é que mudou?

O que poderiam significar 45, 90, 120 minutos na espera que já durava 42 anos? Coisa pra caralho! O tempo não passava, a bola não entrava nem por decreto, mas foi do jeito que tinha que ser.

Dizem que o Maracanã na final de 50 foi o maior silencio já acontecido no futebol. Vai nessa…Pergunta pros 60 mil daquela noite, se não deu pra ouvir a bola batendo na rede naquela cabeçada do Léo Silva. Ninguém respirou naquele lance. Vai que eu respiro mais forte e aquele tal vento põe essa bola pra fora?

Dessa vez, não. A bola entrou. Acredite, a bola entrou!

Não venham com essa de que ganhamos a América. Não ganhamos nada. Nós conquistamos. Na raça, na força, no grito! A Globo nem botou o Galvão pra narrar a final, porque sabia que ninguém ali era o Brasil na libertadores. Aqui não tem essa de Brasil! Aqui é Galo, porra!

Dizem que as forças da natureza são implacáveis, não têm perdão. Escolhemos logo o tal vento pra torcer contra.  E não podia ser num dia tranquilo, tinha que ser durante a tempestade. Precisava disso tudo, Drummond?

Queria que tivesse vivido pra ver o fim dessa história.

Durante 42 anos o vento levou a melhor. A exatos 3 meses, a vingança veio com juros.

Naquele dia, parceiro, o vento perdeu…

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Canto do Leitor – Da inconfidência à libertação das Américas

Fael Lima : 11 de setembro de 2013 3:01 : Canto do Leitor 11 de setembro de 2013 3:01

Foto: Bruno Magalhães

Foto: Bruno Magalhães

Enviado pelo leitor Fred Vidal

Time de preto, de favelado; mas quando joga, o Mineirão fica lotado. (canto entoado pela Massa Atleticana nas arquibancadas do Gigante da Pampulha, numa paródia à música Som de Preto, de Amilcka e Chocolate).

Belo Horizonte, 24 de julho de 2013. Ao baixar do crepúsculo, o tráfego se faz penoso. A região da Pampulha é invadida por um sem-número de carros; um exército inumerável de pessoas marcha pelas calçadas ou arrisca-se por entre os veículos, rumando na mesma direção. Homens, mulheres, jovens, velhos, crianças, negros, brancos, ricos e pobres carregam a mesma bandeira – um coração estilizado trazendo as iniciais C.A.M. –, vestem o mesmo uniforme – a camisa com listras em branco e preto – e, nos lábios, o mesmo grito, que lhes brota das vísceras: “Galo!”. No peito, a única certeza: “Eu acredito!”. Ainda que se desconheçam, ao se avistarem é como se, há mais de um século, partilhassem da mesma familiaridade, visto que acenam uns para os outros e saúdam-se com o grito comum, ou algumas variantes: “Galo doido!”, “Bica, Galão!”, “Vamos, meu Galo!”.

À medida que se aproximam do Mineirão, a Massa de transeuntes ganha ainda mais consistência. Pessoas, a pé, de carro ou em motos, vêm de todas as direções, cada uma com seu jeito de ser, mas carregando a mesma identidade, o mesmo fervor, a mesma alegria em fazer parte desse grupo. Pessoas que partilham de uma única paixão: o Atlético, ou Galo, como lhe chamam carinhosamente. Entretanto, não são meros torcedores. Há um quê que os diferencia das demais torcidas. Mas, que elemento é esse?

O jornalista e escritor Roberto Drummond (1933-2002), mesmo sendo Atleticano, mesmo fazendo parte dessa fanática legião, não compreendia a magia do espírito que movia a si mesmo e aos seus companheiros de torcida, e esforçava-se por desvendar tal enigma:

Foto: Daniel Teobaldo (Soul Galo)

Foto: Daniel Teobaldo (Soul Galo)

Ah, o que é ser atleticano? É uma doença? Doidivana paixão? Uma religião pagã? Bênção dos céus? É a sorte grande? (…) Que mistério tem o Atlético que, às vezes, parece que ele é gente? Que a gente associa às pessoas da família (pai, mãe, irmão, tio, primo)? Que a gente o confunde com a alegria que vem da mulher amada? Que mistério tem o Atlético que a gente confunde com uma religião? Que a gente sente vontade de rezar “Ave Atlético, cheio de graça?” Que a gente invoca como só invoca um santo de fé? Que mistério tem o Atlético que, à simples presença de sua camisa branca e preta, um milagre se opera? Que tudo se transfigura num mar branco e preto?

Torcedores em geral gostam de futebol. Assim acontece com torcedores do Cruzeiro, do Corinthians, do Flamengo, do Grêmio, do Internacional… Mas, para o Atleticano, o futebol em si parece ser o que menos importa. Aqueles que se declaram seguidores desse centenário clube de Minas parecem não dar a mínima para o esporte bretão se comparado ao seu amor pelo Galo, pelo que ele representa, pela sua identidade. Em mais de 105 anos de história, passam-se os anos, passam as pessoas, os seus costumes, suas ideias; passam crises econômicas, tormentas de toda espécie, conquistas gloriosas e decepções, campeonatos são criados e extintos; passam atletas eternizados e outros, medíocres, caem no esquecimento – mas a paixão do Atleticano não passa. Pelo contrário, ela parece estar num constante movimento ascendente, e como que se inflama de geração para geração, fenômeno que deixa os especialistas do assunto, a cada dia, mais espantados: qual o motivo dessa indescritível paixão? O que leva essas pessoas a manterem tamanha devoção a um clube que, em sua história recente, é carente de títulos de expressão? Não tenho a pretensão de dar uma resposta definitiva que explique esse fenômeno, mas penso que todo esse encanto tem sua raiz no instante primeiro da fundação do clube: uma travessura; ou melhor, uma inconfidência.

No dia 25 de março de 1908, dezenove estudantes decidiram matar aula. Era uma quarta-feira – sim, uma quarta como aquela de 24 de julho de 2013! – e um sol fulgurante aquecia as ruas da recém-fundada Belo Horizonte. Liderados por Margival Mendes Leal e Mário Toledo, o grupo de garotos se refugiou no coreto do Parque Municipal. O abandono das aulas naquele dia, porém, tinha um objetivo predeterminado: fundar um clube de futebol “para sufocar todos os outros” que, até então, existiam. “Todos os outros” eram clubes de futebol formados pela elite social da cidade, gente que, devido ao poder aquisitivo, tinha condições de bancar os gastos do tão falado “futebol”, um esporte coletivo que apareceu no Brasil trazido por um tal Charles Miller, que o conheceu na Inglaterra.

Os jovens da classe alta tinham as condições econômicas necessárias para importar artefatos caros e, àquela época, raríssimos em nosso país, como a bola, por exemplo, tal como uniformes e chuteiras para os jogadores. Não bastasse isso, havia uma cultura excludente, e as poucas agremiações existentes só aceitavam nos seus escalões a classe alta – como, por exemplo, estudantes ricos de medicina – e a raça branca. Mas aqueles jovens que se reuniram no coreto do Parque Municipal naquela quarta-feira ensolarada não tinham vez. Tinham origem humilde, suas famílias, se bem não eram as mais pobres, formavam a classe média da sociedade. Não eram aceitos nos círculos abastados e não tinham a condição econômica necessária para bancar o esporte. Entretanto, o desejo não lhes faltava. Queriam praticar o tão badalado futebol, sonhavam em fazer parte de um clube. Por isso, abriram mão de um dia de aula, reuniram-se e se comprometeram a empregar todos os seus esforços na construção daquela nova agremiação que, diferentemente das já existentes, não faria distinção de pessoas, mas estaria aberta a todos. Nascia assim o Athlético Mineiro Football Club. Cinco anos depois, no dia 25 de março de 1913, passaria a se chamar definitivamente Clube Atlético Mineiro.

A pequena associação despertou, desde o início, a simpatia de várias pessoas. As famílias dos estudantes, ao invés de castigá-los por faltarem à escola, apoiaram a ideia e se uniram aos seus objetivos. Dona Alice Neves, mãe de Mário Neves, um dos vinte e dois fundadores – após o primeiro encontro, onde estiveram dezenove estudantes, outros três tomaram parte no empreendimento e são igualmente considerados fundadores –, confeccionou o primeiro uniforme e a primeira bandeira do time. Além disso, ela tomou a frente e organizou uma torcida feminina composta principalmente pelas irmãs dos criadores do clube, a primeira torcida feminina do país. Ela ia de casa em casa, pedindo autorização aos pais e, desse modo, conseguiu reunir cerca de cinquenta moças. Houve, portanto, uma mobilização do povo comum em torno desse ideal. Para a aquisição da bola, por exemplo, foi necessária muita luta, muito sacrifício, pois o artefato teria de ser importado; não existia fabricação no Brasil, uma vez que o futebol, aqui, estava sendo descoberto. O pai de Vate (Margival), com muito esforço, deu uma bola de presente ao filho e à instituição. Mais tarde, outro fundador, Antunes Nunes Filho, conseguiu que lhe enviassem outra bola em troca de insetos que ele capturava e enviava a colecionadores da França. Sim, muita luta e sacrifício; mas muito amor. E, por isso, a valorização extrema de cada conquista, de cada vitória. O “clube dos meninos”, aos poucos, ia se tornando uma realidade, e dessa realidade todos faziam parte. Os garotos se reuniam num porão da casa onde morava o presidente do clube, Vate, na rua Goiás. Eles precisavam, agora, de um lugar onde pudessem praticar o esporte. Então, um vizinho próximo lhes doa um terreno baldio, lugar pequeno, para que, ali, eles pudessem jogar. Alguns colaboradores procuram a prefeitura e conseguem seis antigos postes de madeira, e com estes são feitas as traves. O Atlético tinha, então, o seu primeiro campo de futebol.

No momento nascente daquela cidade com vocação para as coisas grandes, as famílias dos meninos, os seus vizinhos, parentes próximos e amigos, enfim, toda a gente comum, começou a se mobilizar em torno de um mesmo ideal: ajudar o “time dos meninos” a crescer e ter condições de enfrentar os clubes já bem estruturados da classe alta. Qual não foi a surpresa e o arrebatamento quando o “time dos meninos”, já em sua primeira partida, derrotou o já respeitado Sport Club Football! Ora, perder para aquele grupo de garotos da classe média, que de modo tão imponderado resolveram fundar um clube de futebol, era algo inaceitável para os jogadores do Sport. Pediram a revanche, que os fez sair de campo com nova derrota. Enfurecidos, desafiaram o clube recém-nascido a uma nova partida; e novamente perderam. Esta última derrota marcou o fim do Sport Club Football. A alegria de ver aquele time do povo derrotar os seus adversários levou seus primeiros torcedores – não somente torcedores, mas familiares e amigos que, junto dos garotos, tinham lutado pelo uniforme, bolas, bandeiras, campo; enfim, eram o próprio clube – ao êxtase, ao delírio. Tais êxtase e delírio, mais que de um casual sentimento futebolístico, provinham da experiência de inconfidência, do enfrentamento dos opressores, da luta pela liberdade, da afirmação de uma identidade.

Foto: Gabriel Castro

Foto: Gabriel Castro

Desde o seu nascimento, o Atlético é o time dos inconfidentes. Essa tradição é passada de geração a geração. Não à toa é chamado de Galo. O espírito de luta; a valentia dessa ave disposta a dar sua vida defendendo o terreno contra o invasor; a admiração pelo seu canto anunciador da luz que põe fim a uma noite de angústia; o peito estufado, orgulhoso da sua raça – tudo isso é inerente à história do mais tradicional clube de Minas Gerais. São marcantes, dentro e fora de campo, as lutas desse clube contra a corrupção e os desmandos. É impressionante a forma obstinada como o atleticano se nega a curvar a cabeça aos seus opressores.

Na década de 70, por exemplo, auge da ditadura militar, surgiu um garoto vocacionado a fazer gols. Além de brindar o público com jogadas de gênio, Reinaldo tornou-se o maior artilheiro da história do Atlético; o maior artilheiro do Mineirão; o maior artilheiro em clássicos Atlético x Cruzeiro; tem a maior média de gols em todos os campeonatos brasileiros; na opinião de Zico, não fossem suas contusões e final precoce de carreira, Reinaldo seria o jogador brasileiro que mais se aproximaria de Pelé. Pois bem, esse jogador excepcional, em pleno apogeu, passa a comemorar seus gols de uma maneira peculiar: o braço direito erguido e o punho cerrado. Uma casualidade? Talvez a comemoração, ainda que naquele contexto de opressão que envolvia o país, se passasse por um simples ato de marketing pessoal, se o próprio Reinaldo não declarasse a verdade dos fatos: o gesto era, acima de tudo, político socialista, e gritava silenciosamente pelo fim da repressão – ainda que na época, devido à perseguição política, ele atribuísse ao sinal revolucionário apenas uma simpatia pelos Panteras Negras, um partido negro radical dos Estados Unidos. Fato que comprova o teor socialista do gesto de Reinaldo é o de que, na Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina, país que, à época, vivia sob dura repressão militar, o general argentino Jorge Rafael Videla, então presidente do país, pedisse aos organizadores do Mundial que solicitassem à comitiva brasileira e ao próprio Reinaldo a supressão do seu gesto ao comemorar gols na Copa.

Mas podemos atribuir à atitude de um jogador o espírito de todo um clube? Penso que, no caso de Reinaldo, dada a sua importância para o Atlético, sim, podemos. Mas se isso não bastasse, pesa também a atitude da torcida. A Massa Atleticana começa, naquele momento ditatorial, a chamar o jogador, que protestava contra o sistema vigente, de Rei. Aquele que se volta contra os desmandos de um governo opressor, agora, é o seu rei. “Rei, rei, rei, Reinaldo é o nosso rei!” Ora, o reinado do camisa 9 se devia apenas à sua genialidade dentro das quatro linhas? Talvez, mas, latente, pulsando mineiramente, inconfidentemente, lá estava o espírito de oposição do clube a toda a tirania estabelecida.

Necessário é dizer, apesar de sua obviedade, que os que se revoltam contra os poderosos são, invariavelmente, perseguidos. O Atlético é, indubitavelmente, entre os grandes, o clube mais injustiçado do futebol brasileiro. A cúpula política e futebolística do país jamais permitiria ao time que tinha Reinaldo como rei vencer um campeonato nacional. Por isso, em 1977, o Atlético entrou para a história do futebol brasileiro como o único clube a ser vice-campeão invicto. Às vésperas da final, penalizaram Reinaldo por ele ter sido expulso numa partida no início do campeonato, e o suspenderam da partida decisiva. Em 1980, mais uma vez, o Galo chegaria às finais do Campeonato Brasileiro contra o Flamengo, e seria novamente lesado. Tendo ganhado o primeiro jogo por 1 a 0 em Belo Horizonte e estando o jogo de volta empatado por 2 a 2 no Rio, o que dava ao clube mineiro o título de campeão, o árbitro José de Assis Aragão – depois apelidado ironicamente pelos Atleticanos de José de Assis Aramengão – expulsou três jogadores do Atlético (entre eles, Reinaldo), o que possibilitou ao clube carioca a marcação de seu terceiro tento e, consequentemente, o título nacional. No ano seguinte, pela Copa Libertadores da América, num jogo decisivo contra o mesmo Flamengo, foi a vez de o juiz José Roberto Wright expulsar cinco jogadores do Galo (Éder, Reinaldo – novamente –, Palhinha, Chicão e Osmar Guarnelli), encerrando a partida por falta de número mínimo de atletas e dando, assim, a classificação ao Flamengo.

A era Reinaldo passou, a ditadura também; mas a vocação à inconfidência do Galo não mudou, e muito menos a perseguição ao clube por parte daqueles que comandam o futebol. Basta que vejamos os números: antes da fase de pontos corridos, o Atlético foi o clube que mais vezes chegou às semifinais da competição nacional, 14 vezes, e chegou a 4 finais. Entretanto, somente venceu um título na elite do futebol brasileiro, o de 1971. Seria o resultado de uma tão grande incompetência? Seria somente falta de sorte?

O alvoroço estabelecido em Belo Horizonte, que viu seus moradores roucos de tanto gritarem “Galo!” nos dias históricos 24 e 25 de julho de 2013, foi muito mais que a comemoração de um título. Foi a reafirmação de um gigante que grava em definitivo seu nome na história, algo que poderoso algum poderá apagar. A conquista da Taça Libertadores da América sela a vitória de um povo desfavorecido e perseguido, numa luta histórica e centenária entre a arbitrariedade, de um lado, e a inconfidência, a resistência e a superação, de outro.

O que o Atleticano celebra depois do jogo contra o Olímpia é muito mais que um título: é a certeza de que ele, torcedor, ele que esteve junto até o fim, até o caos; ele, Atleticano, que sustentou o clube que as forças opostas queriam fazer cair no esquecimento; que não o abandonou mesmo quando a derrota era tão bem forjada que passava por grande decepção; ele, que encontrou forças para continuar acreditando no seu ideal, hoje tem a certeza de que a liberdade e a justiça, ainda que tardias, precisam ser sonhadas. Alcançá-las é a virada maior.

Ah, Roberto Drummond, Roberto… você, que perguntava “que mistério tem o Atlético”, você já o sabia! E você nos disse qual era o mistério, mas nós não o soubemos decifrá-lo. Antes de perguntar sobre o que é ser Atleticano, você diz:

Se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o Atleticano torce contra o vento.

Aí está, eis a resposta! O que faz o Atleticano, o que o fascina, o que o constitui está intrínseco nessas suas palavras. Primeiro, a camisa branca e preta. Ao destacar o branco e o preto, você quer chamar a nossa atenção para o pendor de cada Atleticano em ser, ele mesmo, um contraste. Sim, o contraste está em nossa alma de Atleticanos, não apenas na camisa; fomos feitos para a luta, para enfrentar o autoritarismo, para discordarmos de tudo o que é corrupção e tirania. Pois bem, essa alma nascida para ser contrastada se coloca contra o vento; não tem medo de mostrar a face aos opositores, ou melhor, de ser, ela mesma, oposição. Sim, Roberto Drummond, o que causa fascínio no Atlético é a sua independência, seu protagonismo. Tu descobriste!

O ditado tão apregoado de que o Galo era o Brasil na Libertadores é preciso ser bem analisado. O país realmente torcia pelo Atlético? Há que se pensar. Nestas terras, o vento continua a soprar para o mesmo lado.

Ao sair do Mineirão naquela noite de glória, uma garoa fina caía do céu. Para que as nossas almas fossem lavadas; ou talvez as gotas fossem as lágrimas de milhões de Atleticanos que já se foram, ansiando por ver esse dia de justiça, que enfim se cumpria. A garoa caía, fina, serena… Mas não ventava. O vento… O vento, finalmente, havia perdido.

Foto: Moacir Gaspar

Foto: Moacir Gaspar

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Canto do Leitor – 24 de julho de 2013 – Uma emoção sem tamanho

Fael Lima : 25 de agosto de 2013 19:36 : Canto do Leitor 25 de agosto de 2013 19:36

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Enviado pelo leitor Rafael Lanna

Copa Libertadores 2013, uma emoção a cada jogo, uma explosão de sentimentos que não conseguimos descrever. Finalmente todo aquele tempo de espera chegou ao fim. O Galo é o Campeão da  América no ano de Dois Mil e Galo.

A ficha parece não cair, e que não caia mesmo. Prefiro continuar vivendo este sonho e me emocionando a cada vídeo, a cada foto, a cada áudio, a cada atleticano que encontro na rua, que veste o manto com um enorme orgulho. Cada atleticano que bate no peito e diz, eu acreditei, eu vivi, eu senti, eu estou libertado, aqui é Galo.

O dia 24/07, para mim guardou enormes emoções. Emoções essas que vão além da razão, além da lógica. Quando a Conmebol anunciou que a grande final seria no dia 24/07, senti um arrepio fora do comum. Desta vez o universo parecia conspirar a favor.

24/07. 2 + 4 + 0 + 7  = 13  e 13 é Galo.

Mas não só isso. 24/07/1988, há exatos 25 anos, eu vivi o momento mais difícil, mais duro, mais triste da minha vida. Meu pai, Sebastião dos Santos, partia deste mundo. Meu pai, o velho Tião, um grande atleticano de arquibancada, de carteirinha, de coração e alma, passaria a acompanhar o Galo em outro plano. O exemplo, o amor, o caráter, o “Atleticanismo” me foi deixado de herança.

25 anos depois, estava eu lá, no dia do jogo mais importante da história do Clube Atlético Mineiro. Acordei (se é que eu dormi) cedo, tentei trabalhar como se fosse um dia comum, mas um sentimento que não sei explicar me tocava a todo instante. Parecia que o Natal chegaria, mas as 22 horas não. Não, eu não trabalhei. Fiquei na empresa o dia inteiro lendo sobre o Galo, assistindo vídeos, fotos, materiais diversos, e com uma vontade imensa de chorar, o dia todo. Acho que nestes 25 anos, nunca senti a presença tão forte do velho Tião. O que me incomodava muito era o fato de ele não estar aqui para viver essa alegria que eu tinha certeza que viria no fim do dia. Como, o responsável por eu ser atleticano, a pessoa que me ensinou a amar o CAM não estaria aqui para ver a maior conquista do clube de coração?

Finalmente é chegada a hora de ir embora do trabalho, e meu chefe que torce pelo time rival foi até compreensivo, me liberando mais cedo para eu poder ir ao jogo. Vou em casa, escolho uma camisa  do Galo para ir à final (quem coleciona camisas do Galo sabe como é difícil eleger uma para um jogo importante), visto uma bermuda da sorte, e o cachecol da sorte também e vejo a carteirinha de sócio-torcedor do meu pai, do ano de 1967. Não tive dúvida, Pai, você vai comigo para a final da Libertadores. Coloquei cuidadosamente a carteirinha no bolso da bermuda junto a um terço, que também tinha levado para a semifinal.

Mineirão em festa, tudo pronto para o grande título do Galo. Coração a mil e finalmente começa o jogo. Deixei a carteirinha no bolso, e peguei somente o tercinho. Galo jogando bem, atacando, pressionando e nada do gol sair. O tempo era inimigo, jogava contra. Galo tentou uma, duas, três vezes e nada da bola entrar no primeiro tempo. E como eu queria que esse jogo já estivesse 3×0 para nós para só garantirmos no segundo tempo e comemorar este título inédito. Não, não seria tão fácil, e o primeiro tempo chegaria ao fim com um incômodo. Se o Cuca no intervalo já estava mexendo no time, tirando Pierre para a entrada do Rosinei, era hora do Tião entrar em campo também. Rezei para ele e para o Galo durante todo intervalo, e, quando começara o segundo tempo eu segurava na mão esquerda o terço e na direita a carteirinha. Gol, gol, gol. Jô abriu o placar. O Mineirão parecia que ia cair, a torcida, antes apreensiva, agora explodia de alegria e cantava sem parar “Eu Acredito, Eu Acredito”…

Eu não sabia se torcia, se eu gritava ou se eu rezava mais, o tempo ia passando e precisávamos de mais um gol. Uhhh, na trave, goleiro pegou, bateu no zagueiro, no montinho, o vento desviava, e num contra-ataque o atacante Ferreira dribla o Victor e fica com o gol escancarado. É só chutar. E agora? Muita gente não viu, o juiz não viu, mas eu vi. O malandro Tião puxou o braço do Ferreira, que caiu pedindo falta e perdeu a chance mais clara de gol de todo torneio.  Jogo que segue, ainda temos mais 7 minutos para fazermos o segundo gol. E este gol viria, numa boa trama do ataque do Galo, Léo Silva foi puxado na área, o juiz mandou seguir, e ele seguiu. A bola sobrou para Bernard, que cruzou e o próprio Léo Silva levantou-se, ao invés de ficar reclamando, e cabeceou sem chance para o goleiro. Com o Galo é tão sofrido que a bola não balançou a rede, e  nós que estávamos do outro lado do estádio (eu, por exemplo) só vimos todo mundo gritar e entramos na festa também. Era o que precisávamos para levar a decisão para a prorrogação e pênaltis. Tínhamos mais 30 minutos e um jogador a mais.

Prorrogação, foi bom só para cansar os adversários, que fizeram uma marcação do tipo ferrolho e praticamente não passaram do meio campo. O Galo atacava intensamente. Várias chances de gol. Bola na trave, defesas do goleiro, pênalti não marcado e tudo caminhava para a disputa de pênaltis, onde o receio voltava à tona. Será que vamos vencer mais uma disputa de pênaltis? Será que a fatídica história de 77 voltará a assombrar o Mineirão? Nada disso, este time provou que adora quebrar tabus, e com um 4×3 vencemos e conquistamos a Copa Bridgestone Libertadores 2013.

Derramando muitas lágrimas e de joelhos eu só pensava em uma coisa: PAI, OBRIGADO POR SER ATLETICANO, OBRIGADO POR ESTAR AQUI COMIGO, PARABÉNS PAI. NÓS SOMOS CAMPEÕES.

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Canto do Leitor – 7616 dias depois

Fael Lima : 15 de agosto de 2013 15:10 : Canto do Leitor 15 de agosto de 2013 15:10

92 conmebol

Imagem: Internet

Texto enviado pelo leitor Daniel da Millo

Dia 16 de setembro de 1992, eu então com 14 anos, tive o prazer de ir com meu pai (que por ironia do destino se chama OLÍMPIO) ao jogo do GALO contra o Olímpia, na primeira partida da final da Copa Conmebol.

Da arquibancada, vi os dois gols e é nítida a lembrança do placar eletrônico preto com lâmpadas amarelas intermitentes: Goooool Negrini…. Goooool Negrini.

Aquela torrencial quarta-feira não foi minha primeira vez no Mineirão. Na minha memória mais distante está cravada a imagem do Rei de braço em riste como um “black panther” e eu na geral sentado no pescoço do velho já sentindo o poder daquela Massa, daquele gesto, daquele time.

Após o Reinaldo passar na nossa frente, meu pai em êxtase literalmente rolou comigo no chão da geral. Cena e sentimento inesquecíveis! Segundo meu velho, era um jogo do GALO em 1981 e eu estava com 4 anos, mas  ele não sabe “precisar” a data. Data não importa. Nunca importou. Afinal, depois de muitas mazelas o destino nos reservara a consagração de um sentimento 7616 dias depois dos 2 gols do Negrini.

Escrever aqui o que é ser atleticano é “chover no molhado”. Quem é, sabe. Aliás, quem é, SENTE! Segundo Fernando Pessoa, “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Pois bem, quando tive consciência que o “preciso” que ele se referia era a “qualidade do que é preciso, exato, rigoroso” e não o fato de “precisar de algo” (como precisamos do ar, do pão ou do GALO)  saquei que Fernando Pessoa, com um “flashforward”, se referia ao sentimento do Atleticano.

Minha epifania mostrou que a nau atleticana não navega, ela VIVE. Só isso para explicar tantos momentos em que a lógica e a matemática apontavam o GALO como campeão, mas o “Sobrenatural de Souza” dava o ar da graça e o GALO sucumbia.

Imagem: Internet

Imagem: Internet

A nau do GALO VIVE! Por isso nunca teve precisão, exatidão ou rigor.

Vivemos pelo GALO, sentimos o GALO. Somos atleticanos antes de tudo. Ser atleticano me moldou para ser um pai, marido e filho melhor. Pois VIVO. Pois sei que a vida não é justa, não é regular, não é um roteiro escrito. Sei que se não der certo é só aguardar que vai dar um dia!

O dia chegou! 7616 dias depois, o dia chegou!

Semana conturbada sem dormir, sem trabalhar direito e sem mais unhas pra roer.

Após milagres, desacertos, e batalhas na Libertadores 2013, o destino impreciso, permitiria mais uma vez eu ir com meu velho ao Mineirão ver nosso GALO contra o mesmo Olímpia.  Quase 11 anos depois estávamos na mesma arquibancada (por pouco não ficamos no mesmo local).

Antes da bola rolar eu só pensava naquela frase que sempre me corroía: “Nunca Serão”! A “precisão” apontava como Campeão o Olímpia. Ainda bem que a nau do Galo vive e não é precisa. Pois agora “SOMOS”!

Contra tudo e contra todos, vi com meu pai e minha irmã os gols de Jô e Leo Silva. Vi da arquibancada a dura e improvável prorrogação. Vi o “preciso” escorregão do Ferreyra.

Não aguentei. Na hora dos pênaltis, fui para o banheiro do estádio, Com a cabeça molhada debaixo da temporizada torneira do banheiro, ouvia o grito da MASSA. Aqueles gritos eram minha TV e através dele, explodi de êxtase com o GALO CAMPEÃO e chorei igual a uma criança.

Ao sair do banheiro, vi uma cena incrível: os portões foram abertos e a multidão que estava do lado de fora invadiu o Mineirão em transe. Uns rolavam no chão como eu em 1981. Muitos choravam e expurgavam todas as mazelas de outrora. Outros parados, incrédulos, e muitos pulando de alegria.

Corri para arquibancada para achar meu pai, mas não consegui. Vimos a entrega da taça separados, mas juntos por esse sentimento que mobilizou 10 milhões pelas Gerais, pelo Brasil e pelo mundo.

Nunca nos preocupamos com títulos. Tê-los não nos torna mais ou menos Atleticanos. Isso é coisa dos vaidosos. Mas confesso que conquistar a América foi bom demais. Ter meu pai e minha irmã do lado foi sublime.

Dia 24 de julho de 2013, 7616 dias depois de 16 de setembro de 1992, vimos um GOL emblemático. Foi gol do Dadá, foi gol do Reinaldo, do Éder, do Marques, do Guará, do Cafunga, foi gol do Mario de Castro, do João de Deus, do Elias e Alexandre Kalil, do Belmiro, do Ligeirinho, do MEU PAI, DO SEU PAI, DA MINHA FILHA, DO SEU FILHO, DA MINHA ESPOSA, de 10 milhões, DO MUNDO!

AGORA O GALO É DO MUNDO E O MUNDO APRENDEU que nau que VIVE, mesmo que tardiamente, também chega ao cais.

Terra a vista!

Somos o melhor time da AMÉRICA! SOMOS DO CLUBE ATLÉTICO MINEIRO!

Daniel da Millo, Belo Horizonte, 25 de Julho de 2013.

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