ABENÇOADO SEJA O CLUBE ATLÉTICO MINEIRO

Minhas principais lembranças dos tempos de criança são das peladas nas ruas durante o dia e das idas para a igreja na parte da noite. Fui criado assim. O relógio da igreja da pracinha bateu seis horas, recolhe o chinelo que faz a trave e entra para o banho para não chegar atrasado no louvor. Nos domingos em que havia jogo do Galo, saía entre uma música e outra para conferir o placar do jogo na sorveteria ao lado da igreja. O Pastor Atleticano nunca começava a falar antes do resultado final.

Antes de dormir lia histórias do clube onde um Trio Maldito havia jogado. Pouco depois veio Guará, o Diabo Loiro, e Ubaldo Miranda, que recebeu o apelido de “Deus Negro do Atlético” no romance sangue de Coca-Cola, de Roberto Drummond. O poeta Drummond sempre associou as campanhas Alvinegras e a fé do torcedor de arquibancada. Aliás, o futebol sempre fez isso.

Garrincha, o anjo de pernas tortas, e Maradona com “La Mano de Dios” nunca foram santos, apesar dos milagres em campo, porém ambos fazem parte do universo futebol onde o bom humor e até mesmo a ironia sempre golearam. E se o mundo eternizou a mão grande em uma Copa do Mundo, por que não festejar a data que conta sobre um pé esquerdo salvador?

O dia 30 de maio em Belo Horizonte tornou-se o dia do milagre na capital mineira desde a noite em que milhões de orações foram atendidas. Para relembrar todas essas histórias, os amigos de arquibancada marcaram um encontro no Independência. Alguém propôs uma caminhada ao redor do estádio e outra pessoa sugeriu que a caminhada recebesse o nome de “procissão”. O “altar” de São Victor do Horto nada mais é que apenas uma homenagem a um jogador de futebol que interferiu na vida de milhões de pessoas.

Ninguém pretende matar carneiros ou construir bezerros de ouro no local. Em momento algum os organizadores (católicos, evangélicos, ateus etc.) do evento “Dia de São Victor” zombam de qualquer religião ou associam a imagem do goleiro a uma entidade divina. Victor entendeu a mensagem de carinho do torcedor e agradeceu a todos pela homenagem. No início do ano, ele deixou na capela de Nossa Senhora a camisa que usou na Copa do Mundo. Quem calça chuteira também tem fé. No caso do atual time Atleticano, tem fé pra caramba.

Quando a festa chegar ao fim, cada um retorna para sua casa com a certeza de que o encontro não interferiu em nada em relação à sua crença. Daremos boas risadas relembrando máscaras do pânico e lágrimas, iremos nos arrepiar ouvindo narrações pela milésima vez. Seguiremos a história do clube que contou com diabos e santos dentro das quatro linhas e no jogo seguinte cantaremos que “o Senhor é Alvinegro e Alvinegro eu também sou”. Como diria Dom Serafim, “o maior pecado é não torcer para o Atlético”. Despeço-me para que eu possa agora fazer minhas orações antes de dormir. Abençoado seja o Clube Atlético Mineiro.

Fael Lima

ABRAÇO, MASSA!

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O TIME DA VIRADA E A TORCIDA QUE NÃO CALA

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Para descrever a virada Atleticana no último jogo eu teria que ser um escritor como Paulo André. Aliás, devemos assumir que se trata de um grande poeta, filósofo, pintor e sindicalista. Não é um bom zagueiro, mas não dá para ser bom em todas as áreas.

Caso atue na área da psicologia, Paulo André terá tanto trabalho nos próximos dias que poderia entrar com uma liminar pedindo para não atender mais pacientes na Toca da Raposa. Entre os pacientes, um Presidente cercado por Atleticanos, um goleiro chama gol e um Damião deprimido após inúmeros pedidos para que sua torcida cantasse. Tudo em vão.

A parte azul da arquibancada abaixou a cabeça como um rival que enfrenta Leandro Donizete. Do lado Alvinegro, o mantra que alimenta o Atleticano em clássicos – vencer, vencer, vencer. Mesmo com o placar desfavorável, aquela gente não parava de repetir nos versos o que queria em campo – raça e amor.

Tenho certeza de que cantamos “O Galo é o time da virada, o Galo é o time do amor” tão alto, que Tardelli ouviu na China e o coração Atleticano arrepiou do outro lado do mundo. No intervalo, um a um, os atletas torcedores foram entrando no vestiário e encarando a torcida que não parava um segundo sequer.

E a raça e amor que o Atleticano queria em campo pulou para a arquibancada. Leandro Donizete e Leonardo Silva participavam das coreografias e ajudavam a empurrar o time. Chegará o dia em que contaremos as histórias sobre esses jogadores para nossos filhos e eles duvidarão se realmente havia tanta paixão nesses ex-funcionários. “Filho, eu juro que o Pratto chegou e no primeiro clássico ele já vibrava como um autêntico Atleticano”.

Nem percebemos quando o juiz encerrou a partida e o lado azul deixou nosso salão de festas. Já estávamos acostumados com o silêncio no restante do estádio. Dessa vez os Atleticanos na arquibancada e no gramado (sem contar o Marcelo Oliveira) cantavam juntos. O Galo é o time da virada. O Galo é o time do amor.

Fael Lima

ABRAÇO, MASSA!

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O LEVIR PIRA

Foto: Bruno Cantini / Flickr do Atlético

Foto: Bruno Cantini / Flickr do Atlético

O Departamento Médico ficou vazio. Após um longo período com intenso movimento no local, os médicos sabem que só poderão contar com Lucas Cândido nos próximos dias para não se sentirem sozinhos. DM vazio significa prancheta cheia para o treinador. Levir Culpi conta agora com nomes que não via desde o início da temporada e Guilherme, querido pelo treinador e que não entra em campo desde outubro de 2014.

Quando Ronaldinho ainda vestia a camisa 10 no Atlético, Levir deixou claro para Guilherme que acharia um lugar no time para o herói do jogo contra o Newell’s. Ronaldo saiu, Guilherme assumiu a 10 e, ao lado de Dátolo, comandou o meio Alvinegro até as velhas lesões o assombrarem novamente. De contrato renovado e com a parte física praticamente em dia, dificilmente Levir deixará de fora o homem que o salvou contra o Corinthians. A briga no meio promete esquentar nas próximas semanas.

Quem sai? Antes de responder a pergunta, vale lembrar que Dátolo também está de volta, também renovou contrato e foi ele quem se tornou o rei das assistências em 2014 com grandes apresentações, principalmente na reta final da Copa do Brasil. O argentino começou o ano de cabeça quente ao receber 3 cartões amarelos em 6 jogos. É quem mais recebeu cartões na disciplinada equipe de Levir Culpi.

Correndo por fora, Dodô é o xodó de Levir em 2015. Só a joia da base e Victor participaram de todos os jogos da atual temporada. Cárdenas vem melhorando a cada chance que recebe e Maicosuel é como um 12º jogador para o segundo tempo. Ainda no meio, Rafael Carioca e Donizete seguem como titulares entre os volantes, enquanto Danilo Pires e Josué brigam pela vaga de reserva imediato. Danilo tem recebido elogios de Levir nos treinos e nos jogos. Eduardo e Pierre foram os atletas que mais perderam espaço no atual elenco.

Na linha de frente, dificilmente Luan deixaria sua vaga escapar, já que tem bons números. Como o atual treinador é viciado em números, Pratto também é presença certa na frente. São 8 jogos, 8 vitórias, 6 gols, 3 assistências e a incrível média de 0,75% gol marcado por jogo. A 9 é dele!

Apesar dos dois gols marcados contra o Villa, Carlos é quem mais corre perigo no atual time titular. Prestativo na marcação e destaque nos testes físicos, Carlos pode pagar por não estar balançando as redes ultimamente. É o preço alto pelas seguidas chances desperdiçadas. Se Jô, André e Cesinha não oferecem tanto perigo, a volta dos meias de criação e um possível acerto com Thiago Ribeiro pressionam Carlos a mostrar números melhores para Levir na fase decisiva do Mineiro e da Libertadores.

A defesa vai bem, obrigado. São quatro jogos sem sofrer gol, mesmo com desfalques e a necessidade de improvisar Patric na lateral esquerda. Leo Silva voltou e caminha para a centésima vitória (99 atualmente) e os 200 jogos com a camisa Atleticana (191). Marcos Rocha nunca esteve tão bem e Jemerson ganha cada vez mais personalidade para defender e coordenar os companheiros. Debaixo das traves, o primeiro nome na prancheta do professor – São Victor do Horto.

Fael Lima

ABRAÇO, MASSA!

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CARTA AOS RIVAIS

Foto: Bruno Cantini / Flickr do Atlético

Foto: Bruno Cantini / Flickr do Atlético

Vocês não aprendem. Entramos em campo com duas derrotas na Libertadores e encaramos como um 2×0 no placar. 2×0 que vocês deveriam estar vacinados. Talvez não esteja sendo fácil esperar por uma vitória do seu time sobre o Atlético. Por isso mesmo, eu até entendo a necessidade vocês comemorarem antes que façamos novamente as viradas épicas. Defesas milagrosas, chutes certeiros, placares inesperados que passam a ser o assunto em todo o país.

Não tenho raiva ou mágoa alguma pelo foguete que você soltou na minha janela em uma das poucas derrotas no Horto. Sei que eles estavam guardados desde 2013 e que a data da validade se aproximava. Te agradeço por não acreditar que a Massa possa viver outro roteiro desses em que a palavra ‘impossível’ é humilhada sempre que alguém solta o ‘eu acredito’. Eu também imaginei que não veria novamente outros finais de partida como os de 2013, até viver 2014.

Quando Pratto acertou aquela cabeçada na Colômbia, você deu uma aula de fé ao pedir aos céus para não reviver seu pesadelo: “Pai, não deixe o Galo chegar! Não permita que o Atleticano volte com aquele grito que faz a diferença na arquibancada”.

Rival, o barulho no estádio será ensurdecedor no próximo jogo. A culpa é sua! O Brasil inteiro ficou arrepiado quando milagres inesquecíveis passaram a ser rotina por aqui. O país aplaudiu, mas você insistiu em repetir que não acreditava no Atlético. Nós acreditamos e você tremeu!

A fé na vitória tem que ser inabalável. Aprendemos isso com lágrimas e um coração batendo cada vez mais rápido. Quando o primeiro sinalizador for aceso na chegada do time, a chama da esperança cobrirá o estádio e o hino que faz diferença dará início a mais uma história dessas que até o olho que testemunhou é capaz de duvidar. Rival, no fundo, você também acredita no Galo.

Fael Lima

ABRAÇO, MASSA!

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O ATLETICANO CANTOU E A VAIDADE TREMEU

Foto: Thomás Santos - Estúdio Treze

Foto: Thomás Santos – Estúdio Treze

Leo Silva, Pedro Botelho, Eron, Marcos Rocha, Giovanni Augusto, Dátolo, Guilherme, Pratto e Jô. Nove desfalques no grupo do Atlético na semana do clássico. Nove! Esse número fará a freguesia azul andar cabisbaixa por um longo tempo. Assim como o adversário que abaixa a cabeça ao se aproximar do Leandro Donizete, o cruzeirense irá evitar trocar olhares com o padeiro Atleticano ou o açougueiro que tem uma bandeira Alvinegra pendurada no comércio. A família passará fome, mas o 9 ainda martela na cabeça do pobre homem.

Ele pagou o ingresso, esteve na arquibancada vazia, cercado por cadeiras cinzas, mas não cantou. A sensação não era das melhores ao perceber que o único barulho no estádio vinha do setor visitante. Mil calando trinta mil. Não bastasse o hino carregado de raça e amor ser uma goleada massacrante sobre a vaidade que ele evita cantar, o povo de preto e branco ainda repetia a irritante música que cita a tremedeira. O cruzeirense olhou para o céu, pediu a ajuda dos antepassados, mas eles também não podiam fazer nada, já que o avô, o bisavô e o trisavô tremiam desde 1921. Restou rezar uma NOVEna.

Nove clássicos, dois anos, uma mensagem subliminar do 9 a 2. Não adiantaria esse papo de bola pra frente, vira a folha do calendário. A folha seguinte do calendário seria dia 9 de março, aniversário do Verón. Puta que pariu!

Antes de o juiz apitar o início da partida, um filme passa pela cabeça do aterrorizado cruzeirense. São 9 gols sofridos desde a última vitória em clássico. Teve gol do Marion, gol do André e o Bruno Rodrigo ainda sente fisgadas na lombar ao se lembrar do Fernandinho. Dessa vez foi o Rafael Carioca. Mais uma falha do Fábio, viciado em costas quando o assunto é gol em clássico. Não foi a primeira, não será a última vez. Melhor não contar para evitar que o número 9 apareça novamente. Não bastasse ter que evitar o açougueiro e o padeiro, ele também terá que evitar o verdureiro e o pé de alface que simboliza os pés e as mãos do camisa 1.

O Atleticano ignorava o placar do jogo. Cantou pelo Atlético e para o Atlético. Esqueceu o goleiro adversário no tiro de meta, pois seria um pecado interromper os versos que afirmavam que aquela Massa ainda irá contagiar multidões de gerações a gerações. Pisar novamente no Mineirão fez o Atleticano lembrar-se que a sua melhor arma ainda é o gogó e que não há desfalque quando a Massa solta a voz.

Ficar sem voz após o jogo é sinal de dever cumprido para o Atleticano. A voz irá aparecer no dia seguinte. Já o cruzeirense…

Fael Lima

ABRAÇO, MASSA!

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Foto: Thomás Santos / Estúdio Treze

Foto: Thomás Santos / Estúdio Treze

O MELHOR FILME DE TODOS OS TEMPOS (PARTE 3)

Imagem: Internet

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O sucesso de “Libertados” fez os responsáveis pelos roteiros do futebol se interessarem pela continuação da história. Após a conquista épica, a responsabilidade era ainda maior. Os Alvinegros não sabiam, mas a segunda parte também começaria com uma difícil reconstrução.

Donos da América, os campeões invadiram a Europa e a África. O português foi o idioma oficial dos aeroportos pelo mundo naquele mês de dezembro. O primeiro golpe na África trouxe a lembrança dos milagres nas batalhas da América, mas dessa vez o milagre não veio. Perto do topo do mundo, o retorno para casa foi amargo.

Para contar uma nova história, foi preciso voltar à estaca zero. O cinema desconstrói para construir. O herói se despediu e partiu para o norte, o comandante que se ajoelhava na lateral do campo foi para a Ásia, a maioria dos soldados ficou fora de combate, alguns dos principais personagens da batalha épica não foram mais encontrados.

Quem ficou, recebeu em mãos o roteiro para a sequência das filmagens. Após conquistar a América, chegou a hora de curar as cicatrizes internas. Era hora de encontrar inimigos do passado. Outra sequência de adrenalina, exageros e vítimas selecionadas a dedo.

Assim como o Batman precisou enfrentar de frente os fantasmas do passado, os Alvinegros teriam a oportunidade de vingança contra morcegos que assombravam o mata-mata. Um elenco exótico foi escalado. O maluco, um argentino, o dono da metralhadora, o menino responsável pela segurança… sem esquecer os personagens principais das sagas anteriores, incluindo o santo.

Como foi dito no início da trilogia, ninguém faria uma sequência tão perfeita, por isso o diretor merece todas as premiações da academia do Óscar. Você teria a audácia de deixar os paulistas abrirem ampla vantagem e ainda zombarem com danças, celebrando a tragédia que repetia 1994, 1999, 2000…? A cena lembrou vilões que amarram suas vítimas e relatam todo o plano, enquanto uma fuga é planejada em silêncio. Festejaram e dançaram ao redor do Cavalo de Troia no gramado sem perceber que os soldados desciam um a um para mostrar ao país que o sentimento de luta até o último minuto estava de volta. Quando a batalha chegou ao fim, pude ouvir o Capitão Nascimento avisando aos cariocas – “Agora o bicho vai pegar”.

Você teria sangue frio para incluir no roteiro seu pior inimigo do passado lhe acertando três golpes e gritando “eu duvido” diante do seu engasgado “eu acredito”? Não! Você não teria. Por isso você não foi o diretor dessa trama. O diretor foi cruel, quis nos deixar com o coração na mão, ele não se importou com a noite em claro. Perto do que vimos nas montanhas mineiras, as obras de Alfred Hitchcock seriam consideradas romance, tamanha psicose em campo.

Críticos teriam avaliado esses três anos como um exagerado roteiro de cenas impossíveis. Um Forrest Gump que também tem histórias para contar sobre o céu e o inferno. O final feliz veio contra os rubronegros. Ali a alma foi lavada. Enquanto os créditos subiam, uma cena extra no DVD, o alívio após tanta tormenta. A valsa com sua dama favorita do outro lado, a princesinha de salto alto e soltando purpurina como nos clássicos da Disney. Antes de retornar ao sonho de retomar a América, o último encontro com Maria.

O país repetindo o lema “eu acredito”, os jovens se alistando no exército que não teme as batalhas impossíveis. Roteiro perfeito. Já com o público de pé no cinema, o aviso na tela – TO BE CONTINUED…

O MELHOR FILME DE TODOS OS TEMPOS (PARTE 2)

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Talvez o piso desconhecido tenha contribuído para o primeiro susto. Foi o terreno mais longínquo que pisamos até então. A ansiedade com a novidade da grama, a estranheza do lado de lá da linha do equador, tudo isso contribuiu para que o roteiro mudasse drasticamente sua trama para o terror. Uma cidadezinha mexicana, próxima à fronteira com os Estados Unidos. Mais uma bela escolha do diretor.

A cena seguinte é difícil de ser compreendida ou narrada. Tudo que for dito é pouco, vazio, não caberia em uma tela, não deve ser medida em megapixel. Nunca o drama e o terror zombaram tanto do espectador, rindo do lado de lá da tela como se tudo aquilo fosse uma grande comédia. Foram noventa minutos entediantes e de dar sono até mesmo à morte. Técnicas de cinema para te despertar de uma vez quando o fim chegasse sem que ninguém esperasse.

Um fim trágico, melancólico e sem trilha sonora. O silêncio foi a melhor forma de encarar novamente que aquele era mais um roteiro de Átila, com a tragédia ignorando o ícone principal da trama, uma peça de Shakespeare onde todos morrem e não importa se alguém esperava pelo final feliz. Riascos. Não lembro de qualquer ator ou personagem com esse nome. Poderia ser o tradicional Juan ou Pablo, o mexicano que saca a arma e fuzila a vítima, levando todo o ouro da cidade de volta ao México. Mas foi Riascos quem partiu para o gatilho.

O flashback de segundos que antecede a morte é mais divertido quando assistimos em blockbusters. Quando nos tornamos a vítima, não existe elegância na plástica da cena que descreve a dor.

Do outro lado não estava o gênio ou seu jovem aluno. Não estava o soldado que retornou para a farda preta. O figurante sequer aparecia na lista dos prováveis heróis, principalmente usando os pés e não as mãos. Eu não sei o motivo, mas essa não seria a última vez que veríamos um Sancho Pança roubando a cena na terra dos mineiros.

Fosse no início da batalha, talvez não seria tão heroico. Fora tudo calculado e a bola não poderia estar 1 centímetro para cima ou para baixo. O caminho teria que ser aquele para bater no meio do pé e mandar para longe todos os finais que já se passaram por essas salas de cinema. Existem os heróis com visão de calor, sopro potente, força extraordinária, peitos que param balas, mas nem a Marvel ou a DC Comics, ninguém havia feito antes o herói capaz de mudar vidas com o pé esquerdo.

Acionaram o cronômetro. Era questão de tempo até que as pessoas esquecessem de vez aquela guerra civil do início para viver um novo período.

Todos caminhavam pelo túnel em direção à luz que quase os cegavam no fim do trajeto. Tentaram apagá-la novamente na Argentina, mas foi no Horto que a escuridão chegou. Com ares de suspense, ninguém sabia como ou quem havia apagado os refletores.

Foi assim que mais um Sancho Pança roubou a cena. Ninguém poderia deixar essa missão como vilão, por isso a luz no fim do túnel ressurgiu graças aos pés de quem sequer tinha o nome gritado em outras ocasiões.

O cronômetro continuava a girar.

Em um ritmo alucinante, a adrenalina aumentava em terras paraguaias. Briga entre os povos, propina para policiais e uma nova derrota.

“Que os jogos comecem”. “Eles podem tirar nossas vidas, mas nunca poderão tirar nossa liberdade”. “Não tente fazer, faça ou não faça.”. “Que dia excelente para um exorcismo” . “O que você faz nesta vida ecoa na eternidade”. – Seria difícil escolher uma frase marcante de filmes do passado para representar a última batalha, em julho de 2013, por isso foi “EU ACREDITO” que se espalhou pelas montanhas de Minas e ganhou o mundo.

Quarenta e cinco minutos sem sucesso no desvio de rota do cometa. O armadegom era uma hipótese real. Guardem água e alimentos, mas deixem de fora bandeiras e a esperança. Os astronautas ainda lutam até o último segundo. Mesmo quando o herói do pé esquerdo ficou para trás e o fim era certo, eles continuaram lutando.

Os números já não eram tantos no cronômetro. Restava pouco tempo. Dez, nove… cinco… três… Cortaram o fio vermelho. Quem? Mais um Sancho Pança improvável na lista dos heróis. Alguém como o último samurai, que chegou a atirar contra nosso exército quando lutava por outra bandeira, mas que agora havia conhecido um novo ideal. Lutar, lutar, lutar.

Qual é o final desse filme? Quando soou o último apito ou no instante em que a taça é erguida para simbolizar a força de quem sobreviveu a uma guerra interna e ganhou a América? O diretor não sabe dizer ao certo. Foi marcante a multidão invadindo as ruas e cravando a bandeira na praça onde pulsa o coração da cidade. A fila quilométrica na Sede dos heróis para ver o metal reluzente, o sorriso no rosto de cada cidadão LIBERTADO. Milhões de Sancho Pança’s que vivem suas batalhas pessoais no dia a dia e ainda conseguem transformar o Clube Atlético Mineiro nesse universo único, mágico e especial. O local certo para o melhor filme de todos os tempos.

CONTINUA…