ABENÇOADO SEJA O CLUBE ATLÉTICO MINEIRO

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21/05/2015 - 02:10

Minhas principais lembranças dos tempos de criança são das peladas nas ruas durante o dia e das idas para a igreja na parte da noite. Fui criado assim. O relógio da igreja da pracinha bateu seis horas, recolhe o chinelo que faz a trave e entra para o banho para não chegar atrasado no louvor. Nos domingos em que havia jogo do Galo, saía entre uma música e outra para conferir o placar do jogo na sorveteria ao lado da igreja. O Pastor Atleticano nunca começava a falar antes do resultado final.

Antes de dormir lia histórias do clube onde um Trio Maldito havia jogado. Pouco depois veio Guará, o Diabo Loiro, e Ubaldo Miranda, que recebeu o apelido de “Deus Negro do Atlético” no romance sangue de Coca-Cola, de Roberto Drummond. O poeta Drummond sempre associou as campanhas Alvinegras e a fé do torcedor de arquibancada. Aliás, o futebol sempre fez isso.

Garrincha, o anjo de pernas tortas, e Maradona com “La Mano de Dios” nunca foram santos, apesar dos milagres em campo, porém ambos fazem parte do universo futebol onde o bom humor e até mesmo a ironia sempre golearam. E se o mundo eternizou a mão grande em uma Copa do Mundo, por que não festejar a data que conta sobre um pé esquerdo salvador?

O dia 30 de maio em Belo Horizonte tornou-se o dia do milagre na capital mineira desde a noite em que milhões de orações foram atendidas. Para relembrar todas essas histórias, os amigos de arquibancada marcaram um encontro no Independência. Alguém propôs uma caminhada ao redor do estádio e outra pessoa sugeriu que a caminhada recebesse o nome de “procissão”. O “altar” de São Victor do Horto nada mais é que apenas uma homenagem a um jogador de futebol que interferiu na vida de milhões de pessoas.

Ninguém pretende matar carneiros ou construir bezerros de ouro no local. Em momento algum os organizadores (católicos, evangélicos, ateus etc.) do evento “Dia de São Victor” zombam de qualquer religião ou associam a imagem do goleiro a uma entidade divina. Victor entendeu a mensagem de carinho do torcedor e agradeceu a todos pela homenagem. No início do ano, ele deixou na capela de Nossa Senhora a camisa que usou na Copa do Mundo. Quem calça chuteira também tem fé. No caso do atual time Atleticano, tem fé pra caramba.

Quando a festa chegar ao fim, cada um retorna para sua casa com a certeza de que o encontro não interferiu em nada em relação à sua crença. Daremos boas risadas relembrando máscaras do pânico e lágrimas, iremos nos arrepiar ouvindo narrações pela milésima vez. Seguiremos a história do clube que contou com diabos e santos dentro das quatro linhas e no jogo seguinte cantaremos que “o Senhor é Alvinegro e Alvinegro eu também sou”. Como diria Dom Serafim, “o maior pecado é não torcer para o Atlético”. Despeço-me para que eu possa agora fazer minhas orações antes de dormir. Abençoado seja o Clube Atlético Mineiro.

Fael Lima

ABRAÇO, MASSA!

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