Há cinco anos, ele estava entre nós

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29/06/2017 - 10:05

Por: Pedro Galvão

“Time bom não precisa de goleiro bom”. Eu, idiota, teorizava com um desconhecido que viria a ser um grande amigo, companheiro de arquibancada, numa mesa de bar, durante um aniversário de um camarada em comum.

Era o alento encontrado por mim para a tormenta que parecia sem fim. Uma sucessão de desastres, cujos nomes todo mundo tinha náuseas ao lembrar: Juninho, Edson, Carini, Aranha, Fábio Costa, Marcelo, Renan…

 

Cético de que qualquer divindade pudesse aparecer para resolver o problema, preferia argumentar que o Félix mal era citado quando se fala da Seleção de 70. Ou que o rival do Rio colecionou títulos talvez sem nenhuma grande atuação do Raul nos anos 80 (afinal, quem tem o juiz a favor vai lá precisar de goleiro?) e o Barcelona do Guardiola, grande time do momento, confiava a meta ao questionável Victor Valdés. Ninguém precisa de um salvador, só os fracos...

 

Ronaldinho já tinha chegado. A zaga passava confiança com Léo e Réver. Bernard voava pela esquerda e o time já mostrava que tinha algo diferente no ar com alguns resultados expressivos e bom futebol nas primeiras rodadas do Brasileirão de 2012. Não precisa de goleiro. O Giovanni não é lá grandes coisas, mas “dá pro gasto” se o time jogar bola. Era melhor acreditar assim. E rezar escondido.

Quando falta a fé, vem o desespero e a gente acaba delirando e falando bobagem. Peço perdão, para o resto da vida. Mal sabia eu que tudo de bom que eu começava a fantasiar naquele fim de outono de cinco anos atrás só seria possível depois do dia 29 de junho.

 

“Torcida mais chata do Brasil, se o problema era goleiro não é mais. Victor é do #Galo!”, cravou o atual prefeito na sua rede social predileta.

 

Desconfiei. “Não, ele deve estar em má fase, o Grêmio jamais abriria mão”. Típico dos céticos. Tinha uma lenda que vinha do sul de que ele não ganhava títulos, não ganhava clássicos, sempre tomava gol de argentinos. Deve ter sido cunhada pela mesma turma que viria a dizer, no ano seguinte, que ele não sabia pegar pênaltis porque pulava antes. É muita blasfêmia para uma história só.

Ainda bem que existe a realidade para mostrar a verdade. Com a camisa 83, ele entrou em campo e logo veio um milagre cara a cara com Fred no Engenhão, um pênalti defendido em Recife e uma porção de pequenas façanhas que há tempos não víamos por aqui até chegar aquele dia 30 de maio, à meia-noite no Horto, quando a consagração aconteceu. Ali ele já vestia o manto de número 1, hoje seu por direito. Agora e para sempre, todos os séculos e séculos, para sempre, amém.

Bons times começam sim com bons goleiros, só um idiota diria o contrário. E times sagrados começam com um santo no gol. Victor Bagy se tornou o maior arqueiro da história do maior clube de Minas, venerado pela enorme Massa de fiéis. Não só pela extensa lista de pequenos e grandes milagres operados debaixo das traves e glórias conquistadas em campo, mas também pelo caráter e pela humildade, sempre alheio à pregações e outras presepadas, tão comuns a alguns falsos líderes nesse mar de pecados e heresias chamado futebol.

Obrigado São Victor, por esses cinco anos e uma eternidade inteira na história do Galo!