Hoje a cidade não acordou. Após a noite de ontem, ela sequer foi dormir. Hoje não existe trabalho, não existe hora, mão ou contramão, hoje a cidade é nossa. Daqui a cem anos, você se lembrará de cada segundo desse dia, que roupa usava, pra quem você ligou primeiro, qual foi o grito ao abrir a janela. Um grito dos muitos que pareciam dor extrema, mas que representava alívio da alma. Escolha a melhor camisa, solte fogos, dê um abraço naquele amigo que sempre avisou “acredita, nossa hora vai chegar”. Ela chegou! A cidade é nossa.
Dava pra ver que havia algo diferente na cidade quando um Atleticano cantava o hino pendurado em cima de um semáforo, em plena Praça Sete. Talvez tenha sido ele que parava em frente aos carros, debaixo do mesmo semáforo, dias antes, batendo no braço e gritando “eu acredito”. E todos acreditavam em duas coisas – No título e no sofrimento que viria antes dele, afinal de contas, aquela frase não envelhece nunca. Se não é sofrido, não é Galo.
Quanto maior o sofrimento, maior a alegria. Por isso as avenidas não couberam tanta felicidade e o trânsito da minha cidade estava caótico às 4 da manhã. Na Praça Raul Soares, a bandeira Atleticana apertava os corpos de um casal, provavelmente escolhendo o nome do filho que um dia terão – Victor ou Bernard? Réver ou Tardelli? Luan ou Leleu? – O filho desfrutará dos novos tempos na arquibancada. Nos momentos decisivos de um jogo, o pai se lembrava quando nada dava certo, a queda, os dias difíceis. O filho citará o Galo que acredita até o fim, da sorte de campeão, a camisa de respeito de ídolos do passado, como Pierre e Ronaldo.
Veio a noite e a Praça Sete continuava lotada, o mar de camisas e bandeiras Alvinegras tampou calçadas e ruas e a única certeza é que aquilo estava acima de qualquer sonho para o dia mais feliz das nossas vidas. Como um muçulmano que visita a Meca, os Atleticanos iam até a Sede de Lourdes, tocavam o vidro que os separavam da taça e faziam uma reza baixa.
E assim como a visita a Meca, é direito e obrigação de todo Atleticano chegar próximo daquela taça pelo menos uma vez na vida. Ela é de todos, é do povo, dos que estavam no Mineirão ou do outro lado do mundo, dos que invadiram as ruas da minha cidade e os que não estão mais entre nós, é minha, é sua, é do presidente que a levou pra cama e do bebê que o casal sequer escolheu o nome, mas que já carrega o DNA Atleticano nas veias.
Durma em paz, Atleticano. Amanhã a cidade acordará mais uma vez Alvinegra. Grite, solte bombas, invada as ruas, afinal a cidade é nossa, a taça é nossa.
ABRAÇO NAÇÃO!



