Era terça-feira e a Dona Lenni, uma senhora de 78 anos, já estava ansiosa para ter o seu ingresso em mãos. Não adiantaria muito, pois só na quarta-feira começaria a venda e ela conseguiria finalmente garantir sua presença no jogo.
No sábado, dia do jogo, ela era das mais animadas antes de entrar no ônibus que a levaria ao reencontro com o Atlético. Não foi a primeira vez que a encontrei, já que, em outra ocasião, registrei a mesma Dona Lenni dançando um funk até o chão.
Senti ali, o faro de um poço de histórias ligadas ao Galo, dessas que eu adoro ouvir e compartilhar com vocês. Não deu outra! Contou com detalhes dias alvinegros em que valeria as mais de sete décadas vividas. Onde mais eu encontraria uma senhora que o filho precisou buscá-la no fim da madrugada, no bar próximo ao estádio? – “Contra o Ceará, era despedida do Mineirão e eu ia embora? Nunca!” – Atleticanos que querem viver mais um dia, com a certeza que a próxima história vivida ao lado do Galo será melhor que a de ontem.
No estádio, vi o motivo da pressa da Lenni em garantir seu ingresso. Crianças pintavam o rosto uma das outras, enquanto o pai aguardava na fila para também ficar de pele alvinegra. A surpresa veio quando soube que a turma era de Manaus.
“A gente espera o tempo todo por isso, eles vivem Atlético onde vão, sabem imitar o narrador favorito, respiram o preto e o branco.” – Foi o que ouvi do pai, enquanto procurava a Lenni para presenciar a cena. Tenho certeza que ela ia adorar, assim como pedi à minha falha memória que registrasse aquele momento.
Não encontrei a Lenni, mas vi o Mister Galo tocando um bumbo invisível, como se pudesse reger uma orquestra. Pensei em interrompê-lo, mas algumas pessoas davam risadas do Mister, que ignorava tudo ao redor. Parar aquilo seria crime inafiançável, já que tudo isso faz parte do espetáculo Alvinegro. A bola rolando, os números do placar, um lance decisivo em campo, jamais ofuscarão o que a torcida atleticana faz na arquibancada.
Já que o Mister Galo não poderia responder, procurei pelo Felipão, e o avistei assistindo ao jogo em cima de uma carro parado dentro do estádio. Nem cogitei contar isso aos amigos, já que ninguém acreditaria. Só uma pessoa acreditaria, a dona Lenni, pois essa identifica de longe uma loucura cometida por amor ao Galo!
Acabou o jogo, comemoramos a vitória e começamos a caminhar em direção ao nosso ônibus novamente. Na porta do estádio, com uma latinha na mão e o ingresso intacto na outra, chegava a Lenni, mais feliz do que nunca pelo resultado.
Passara o jogo todo com alguns amigos no bar da esquina. Lá ela podia beber sua cervejinha e ninguém precisaria ficar de olho nela, temendo uma invasão ao campo, caso o juiz prejudicasse o Atlético.
Já a caminho de casa, ela olhava pela janela do ônibus, segurando seu ingresso. Só agora eu entendia o motivo de tanta pressa para tê-lo. A Dona Lenni queria algo que a fizesse lembrar que o Atlético passou das quatro linhas, invadiu nossas vidas, fabricou amizades, multiplicou histórias. O Atlético não é uma goleada ou um título a mais, já que ele pode mudar vidas sendo uma simples reunião de amigos que estão ali por terem uma mesma paixão, o Clube Atlético Mineiro.
Fotos: Amigos da Força Jovem
ABRAÇO NAÇÃO!
Fael Lima







