Alexandre Kalil já prepara o Galo para próxima temporada

Por:
22/09/2009 - 15:17

"Quero sair do meu mandato com um título como o de campeão brasileiro. Agora, se a gente for brasileiro, cuidado que vou querer o Mundial"
Maurício Miranda e Cândido Henrique Silva

O mesmo Alexandre Kalil que assumiu a responsabilidade pela goleada sofrida para o rival Cruzeiro, na final do Campeonato Mineiro desse ano, neste momento respira aliviado com o bom momento do "novo" Atlético no Campeonato Brasileiro.

Centralizador, ele admite que herdou essa característica do pai e ex-presidente do Atlético Elias Kalil. Para o filho, agora dirigente, não há divisão de responsabilidades no clube. Tudo passa pelo mandatário atleticano e todas as decisões são tomadas por ele.

Em uma hora de papo é possível observar que Kalil se mostra um atleticano que usa o amor pelo clube para se unir aos três filhos e ditar conceitos de vida. Confira um pouco da entrevista exclusiva a O TEMPO em que o autêntico dirigente passa a limpo seus sonhos e objetivos no Galo.

De onde veio o dinheiro para o Atlético fazer contratações de impacto como a do Carini, Ricardinho, Diego Tardelli?

Não houve antecipação de receita e o Atlético só equacionou a sua dívida de uma forma que ela foi dividida no mandato todo do presidente. Claro que o meu prestígio junto aos que estavam esmagando o Atlético pesou e eu consegui numa época de crise profunda, em que os bancos não estavam fazendo nada, uma divisão de 36 meses. Reduzi R$ 1,2 milhão na folha de pagamentos por mês de gente que não fazia a menor falta para o Atlético, entre jogador, preparadores, diretores, gerentes, sub-gerentes, tri-gerentes. Você não andava nessa sede de tanto funcionário. Não fiz milagre nenhum não. É pegar o dinheiro e, ao invés de gastar com festa com o Jamil, você trazer o Correa. O Atlético não fez porque não quis, não houve vontade política. O que ta todo mundo entendendo como milagre é trazer o Atlético para a normalidade.

Você se considera um presidente centralizador?

Absolutamente centralizador. Tenho uma equipe que trabalha para mim e sabe que quem manda sou eu. Gosto de trabalhar para mim. Existe um segredo no futebol. O comando é único e não adianta você falar vai ali ser diretor disso e daquilo, cheguei aqui e tinha gente que passou 50 dias na Europa, outro passou 40 dias no Japão e tinha funcionário que ganha R$ 400 com três, quatro meses de salário atrasado. Se você pegasse uma viagem para o Japão você pagava dois meses de 300 funcionários, foi conta que eu fiz e não estou inventado.

Futebol existe uma coisa que todo mundo tem que saber. Eles (jogadores) conversam e na hora que chega o Tardelli, que foi a primeira estrela da companhia, volta o Eder Luis, e alguem recebe um telefonema do Júnior e ouve que isso daqui é um paraíso, tem estrutura, salário em dia, treinador, tem comando. O pai do Ricardinho me contou que o Ney Franco, que nunca conversei com ele, disse que o Atlético é um novo clube, que está organizado, me elogiou.

Você consegue negociar pelo seu prestigio.

Exatamente. Chegou ao ponto de jogador me pedir uma casa com aluguel de R$ 2 mil e eu explicava que não ia dar a casa porque todos me pediram e eu neguei para todos. O ambiente não tem sacanagem. Quando um vai conversar com outro eles percebem que são tratados da mesma maneira. Igualdade com as devidas diferenças.

Você já disse que seu perfil exige que você pague em dia os jogadores.

Já pensou se o Vittório Medioli entrar na sua porta, meter o pé nela, te dar um esporro e voce com tres meses de salário atrasado. Pagar em dia é beabá do futebol. Presidente não bate na porta, já vai entrando.

Sou um centralizador que escuto muito e a maioria das grandes idéias do Atlético não saíram da minha cabeça. Eu escuto demais, mas quando tenho certeza de uma coisa não adiante todo mundo falar o contrario. Ser centralizador não é ser burro, mas ser centralizador não é ser burro. Aqui só tem um comando de voz. Quando se faz um negócio, como proibir soltar lista de jogadores relacionados para uma partida, essa é uma ordem que só eu dou. Só pago o prêmio dos jogadores quando está entre os quatro.

Não vivo o Atlético o dia inteiro, eu trabalho de manhã (na empresa particular). Tenho uma vantagem, sou separado e meus filhos estão criados, todos homens e na faculdade, então eu saio do Atlético todos os dias nove horas da noite. O desafio de ser o presidente do Atlético está solidificado na minha cabeça. Não estreei aqui, fui presidente do conselho deliberativo durante nove anos, mexi no futebol e o que tinha que tinha que ser feito e como eu ia fazer eu já sabia.

Afastamento

Fiquei longe do futebol do Atlético de 2003 a 2009, sem botar o pé no CT e me arrependo de ter me afastado. Não iria acontecer o que aconteceu e me sinto um pouco culpado. Saí em 2003, em abril, o Atlético caiu dois anos depois. Me arrependo como atleticano, meu coração. Eu hoje sei porque eu sai do Atlético, era porque eu não estava sentado nesta cadeira (de presidente). Eu era um trabalhador braçal.

Semelhança com o pai

Me espelho no meu pai e chega. Se tiver um exemplo tão intimo e próximo no Atlético como meu pai não preciso falar de mais ninguém. O papai era mais discreto na centralização, mas era muito centralizador. Ele usava uma expressão que uso muito: "a cara que vai para a janela é a minha, então na hora que tomar a decisão sou eu que tenho que fazer. Não é a torcida que vai para a janela, ela vem é quebrar o vidro.

Saída do Tardelli no fim do ano

É um negocio que estamos pensando muito e ainda temos um tempinho para tomar uma decisão sobre isso. Admito qu
e é difícil ele permanecer. Expliquei que o nosso plano era trabalhar direitinho sem desfazer de ninguém. O Atlético precisa de uma oportunidade para ter um time, tem quanto tempo que não temos um? Foi em 2001, a equipe que eu montei.

Jogar na Arena do Jacaré na Libertadores

Tem escolha? Minha avó falava que o que não tem solução solucionado está. Para jogar qualquer lugar é a mesma coisa.

Centenário e auditoria

Como atleticano recebi uns 120 convites para festa e não fui em nenhum. Nada fere mais a torcida como um time ruim. Fez, gastou, tudo é bobagem. Só ficamos putos por não termos time no centenário, nada nos fez mais raiva. A auditoria está prontinha no conselho, o Ministério Público está olhando, pedindo documento, fazendo e acontecendo e tudo que solicitam eu entrego. Os credores tinham desistido de receber, agora que estamos acertando com todo mundo. Estava desorganizado. Um clube que passa 45 dias sem presidente. Saiu um presidente e tres vices, ficaram 45 dias para convocar uma eleição. O Atlético chegou as beiras do inacreditável.

Reeleição

Não penso nisso, não acabei nem um ano de mandato ainda. É muito cedo para falar, reeleição de clube depende do momento que está. Se estiver bem, ganhou, está organizado, melhorando, acho até válido. Acho que uma continuidade no futebol de cinco anos, seis anos isso não vai fazer mal. Quanto mais tempo organizar o Atlético, mais difícil de desorganizar vai ser.

Meta

Quero sair daqui cumprindo uma missão. Fui lá e peguei uma paixão infantil fiz do meu time um negócio muito bacana, para mim e meus três filhos.

Rivalidade Cruzeiro

O que aconteceu com o Atlético foi muito traumatizante. O Cruzeiro ficou uma década sem ganhar do Atlético, dez anos. Na década de 80 o cruzeirense vestia a camisa do Flamengo, porque o Cruzeiro não existia, foi riscado do mapa pelo Atlético. Já acabou, falaram que o freguês voltou.

Contratações para este ano

Acabaram. As contratações não acabaram, o dinheiro que acabou.

Planejamento 2010

O Atlético está concentrado em 2010, está trabalhando para isso. Como em 2010 vamos pensar em 2011. De um determinado tempo para cá as contratações foram pensadas na temporada seguinte, do Rentería para cá e tem muita gente que está que vamos atrás para continuar.

Responsabilidade

O presidente é responsável por tudo. A vitória é do presidente e sua equipe. Pegar um microfone depois de uma derrota por 4 a 0 na final do campeonato e falar que a culpa é minha então é sinal que sou responsável por tudo, como eu disse que era o único responsável.

Planejamento se o atlético não for para libertadores.

Nós sabemos contratar, vamos desaprender se não nos classificarmos para a Libertadores? Eu emprestei e tive duas propostas para tirá-lo, só não tirei porque dei a palavra para o presidente do Fortaleza.

Leão

A torcida quando eu trouxe o Celso Roth queria me matar. Trouxemos nomes bons com o Leão também. Ele teve uma participação importante num momento muito difícil do Atlético. Foi o primeiro alento da torcida do Atlético. O Leão foi considerado o primeiro alento da torcida. É injusto com o Leão. Eu sou o presidente do clube tenho que me adaptar as coisas. Não me adaptei ao trabalho do Leão, mas como homem, caráter, amigo, um cara gentil, tranquilo. Tudo que me falaram do Leão ele foi ao contrário comigo. Tive n motivos para não querer o Leão, menos o pessoal. O Leão era centralizador, mas o Celso é também e é isso que eu quero. Eu disse e continuo dizendo, vou ao CT passear. O presidente tem a obrigação de manter as coisas em dia, de participar do planejamento, contratação.

Jonílson

Treinador no Atlético só traz jogador que eu quero. Sempre achei o Jonílson um lutador, um cavador. Ele é aquilo que é tomador de bola, ele tromba xinga e foi uma oportunidade muito boa para trazê-lo.

Serginho

Todo mundo que viu o Serginho jogar tinha a obrigação de falar com ele (Celso Roth) que ele era um craque, um talento. Pedimos e falamos para olhar esse menino. Brincamos que ele ia tomar a posição de titular no treino, foi o que aconteceu.

Relação presidente x treinador

Não tenho uma convivência diária com o treinador. Da mesma forma que a gente sai par tomar uma garrafa de vinho juntos, senta, bate-papo, ri, nós não temos uma intimidade. Conheço a esposa dele, gosto dela, conheço os filhos, são pessoas de primeira qualidade e tenho um apreço pessoal muito grande pelo Celso. Conheço a linha dele, o caráter, é um cara que luta pelo salario, porque vive dele. Não entra em negócio de jogador e não se mete em nenhum. Aqui no Atlético ele não fez um contato.

Marques

O Marques encerra a carreira agora, ele me falou. É candidato a deputado. O Túlio divide a carreira num time de Goiás, da terceira divisão.

Terceiro uniforme

Não sei, vou olhar isso. É tão bobo isso mas vou olhar. Vamos fazer um terceiro uniforme listrado (risos).

Sucessor da família Kalil

Tenho um filho que tem o perfil, o do meio, o João Luís. Pelo menos ele é metido a entender de futebol e a gente aqui consulta ele pra burro. Quando quero saber quantas partidas um jogador fez mais rápido, quando estamos reunidos, eu falo com ele. Jogou tantas partidas e ainda fala a equipe. Por isso que ele foi levado ao estudo a tapa pela mãe dele, pois só ficava assistindo a ESPN e mexendo no computador.

Sou um cara separado e tenho um convívio com os meus filhos sempre de futebol. Não é agora que sou presidente do Atlético, sempre foi o futebol. Só conversamos de futebol e acho que isso aproxima a gente. Não tive a oportunidade de ter uma filha, fui um pobre coitado que só saiu três machos.

Queda

Quando o Atlético caiu para a segunda divisão tive que ir para casa as pressas. Minha ex- mulher ligou e disse que a casa caiu. Era quatro adultos chorando copiosamente quando cheguei, os três filhos e eu.

O Atlético deve, os outros times devem, o Atlético deve imposto, os outros também. Um deve R$ 100 (mil) outro R$ 200, R$ 300. Todos vão equacionar a sua dívida um dia ou outro, o Atlético tem como equacionar, pois é um time rico, cheio de patrimônios. Recebi o pessoal da Fifa aqui e eles perguntaram se estão querendo compara o CT da Inter de Milão com o Atlético. O queixo do Ricarinho caiu.

Base

Categoria de base nós reformulamos do pré-infantil ao júnior, de gerente, sub-gerente e treinadores. Trocou tudo. A base continua sento o pilar do trabalho, como na época do meu pai, toda hora sobe um menino para treinar e treina contra o júnior. Ninguém sabe, mas vou contar para vocês. O júnior ocupa um vestiariozinho que é um buraco quando vai fazer preliminar no Mineirão. Nós tomamos uma decisão aqui para fazer os meninos sentirem o gosto do luxo na final da Taça BH. Os meninos entraram no vestiário principal, aqueceram lá, trocaram de roupa. Isso é você dar importância para a categoria de base e os jogos decisivos, todos, eu assisti do banco de reservas.

Mini estádio

O Atlético só constrói time de futebol enquanto eu estiver aqui dentro. Não vamos levantar um tijolo, estamos querendo quebrar tijolo. Estamos queremos diminuir a estrutura, tem muita gente aqui dentro. Vai ser três anos construindo em time.

Folha de pagamentos

É paga em dia. Não tem nada de exorbitante. Tive outro dia no Clube dos 13 e estou horrorizado. Como o Atlético vai pagar uma folha exorbitante?

E o Carini, Ricardinho e Rentería?

Não. No Atlético, nenhum jogador destoa do outro. Tem uma linha de Tardelli, Ricardinho e Eder Luís. E tem outra linha que vem os outros. Depois vem os juniores. Mas tudo dentro de uma linha. Ninguém ganha mais à toa e menos à toa. Você traz um jogador de 200 mil reais e traz dentro do Atlético, os jogadores vão falar: então corre. Você está doido que o Atlético vai pagar 200 mil para jogador. Você está doido?

Qual o teto dos jogadores do Atlético?

Um pouco menor que o do Cruzeiro, que logicamente você deve saber.

Tardelli

Tivemos que desenterrar o dinheiro. Tivemos que bloquear um dinheiro. A história não é tão simples assim não.

Eu sempre representei o Atlético, no futebol, no Clube dos 13 e na CBF também. Então não foi difícil saber. Era o Flamengo e os empresários que eram donos dele. Nós montamos uma engenharia, nada de genialidade. Nós descobrimos um dinheiro do Bruno, que estava solto. A gente ou paga ou... Ai, falaram que não podiam. Então vamos negociar o Tardelli. Além do que deviam do Bruno (450 mil euros), demos mais 300 mil reais em seis parcelas. Já está pago em dia.

Visitas no CT

O futebol tem que ser tratado, sob todos os aspectos, como uma empresa. Você vai visitar o que aonde? Lógico que vamos abrir para creche, igreja, conselho. Outro dia foi um deficiente que pediu e a gente abre. Mas ali é local de trabalho, a gente não pode abrir para todo mundo não. Mas isso atrapalha. O que aproxima a criançada é a bola entrando. É o Atlético ganhar e o Cruzeiro perder. É o Atlético em quarto e o Cruzeiro em décimo terceiro. Como foi anos atrás. Nos anos 80, com o Atlético. O que incentiva é a bola entrando no gol.

Como é o Alexandre Kalil no dia a dia?

Eu sou cara absolutamente simples. Tenho hábitos muito simples. Eu gosto de jantar com meus amigos e os meus filhos. Eu gosto de namorar. Gosto de tudo que todo homem comum gosta. Gosto de tomar meu vinho e meu uísque à noite. Gosto de conversar. Hoje, eu peguei meu filho, fui comprar roupa para ele no shopping e de lá fomos almoçar. Eu ando na rua com naturalidade. Eu não sou bravo. Eu só gosto das coisas certas na hora certa. Eu não tenho a menor afetação. Eu sei que sou um homem público e que amanhã não serei mais. Sei que tenho obrigações como presidente do Atlético, por ser um homem público. Isso me envaidece. Eu sou um cara normal. Eu tenho a vaidade de fazer bem feito e ser reconhecido na rua. Como sei que, se fizer errado, eu vou ser apedrejado. Eu sei de tudo com a maior clareza. Amanhã vai sentar outro aqui que vai ser melhor do que eu e vão me esquecer. Eu tenho tudo isso pronto da minha cabeça. Eu vim para cá para assumir meu papel e, com certeza, vai dar certo.

Você tem uma meta?

Eu quero sair do meu mandato com um título. Como campeão brasileiro. Eu não queria mais nada. Agora, se a gente for brasileiro, cuidado que eu vou querer o título do Mundial. Mas ser campeão brasileiro é uma senhora meta.

É um título que seu pai não tem no currículo.

É, não tem. Tiraram dele. Roubaram esse título do Atlético.

Seria um fechamento de ciclo de seu pai também?

É. Eu acho que sim. Se isso acontecer, será realmente o fechamento de um ciclo do meu pai. E estamos próximos, viu? Estamos a quatro pontos.

Esperava que fosse tão rápido?

Não. Eu acho que o futebol está bagunçado demais. Por isso que foi tão rápido. Já estão caçando o presidente do Fluminense. O outro não foi treinar porque falou que não foi treinar porque o pneu estourou e depois viram o cara tomando coco, Aqui no Atlético, jogador fura o pneu uma vez. Na segunda vez, ele troca pneu em outro clube.

Se jogar resolver tudo em campo, ele pode fazer o que quiser fora?

Claro.

Tipo o Guilherme?

O Guilherme teve muita lenda em volta dele. Ele é atleta profissional de alto rendimento. Ninguém consegue ser artilheiro do Campeonato Brasileiro na gandaia. Ele tinha os dias de gandaia, mas o Guilherme nunca atrasou em um treino cinco minutos. E olha que quem trouxe ele para o Atlético fui eu. Eu tirei do Vasco na terceira reserva. Ele nunca me deu o menor problema.

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Entrevista concedida ao Jornal "O TEMPO". Me desculpem, mas algo tão completo, dispensa ilustrações.

ABRAÇO NAÇÃO!