Atlético campeão da Libertadores – Eu não estava na arquibancada

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15/08/2013 - 02:27

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Imagem: Internet

O Blog Cam1sa Do2e convidou o leitor Guilherme Leandro a compartilhar como foi o dia 24 de julho em sua vida. Sempre encontramos com o Atleticano na arquibancada, exceto no dia do título. Entenda o motivo a seguir.

Meu nome é Guilherme Leandro Castro Corrêa, tenho 29 anos, sou Biólogo e atualmente faço Mestrado em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre na UFMG. Você já vai entender por que faço essa breve introdução de quem sou e o que faço. Minhas opções e sonhos se misturando e um influenciando o outro.

Minha rotina diária hoje é bastante variada. Vou à UFMG cursar disciplinas, ou ao laboratório estudar, compilar relatórios, fazer trabalhos, ler artigos científicos relacionados ao meu tema de estudo, etc. Mas tem algo que há 29 anos indubitavelmente faz parte de minha rotina: o Atlético. Assim como você, leitor do Blog Camisa Doze, dedico boa parte dos meus dias lendo, respirando, discutindo, me informando e me alimentando de Atlético. Confesso que gostaria de manter essa ânsia mais controlada, mas como uma espécie de “câncer do bem”, essa doença é incurável e de prazo indeterminado, afinal de contas, assim como meu pai, essa paixão será transmitida pelas minhas próximas gerações.

Acompanhei todos os jogos do Atlético no Horto durante a Libertadores e a cada um deles, crescia a expectativa sobre o momento que seria o maior de nossa história: Uma final de Libertadores. Imaginava as praças cheias, as pessoas descontroladas, enfartos lotando hospitais, choro, alegria, GALO! Ao mesmo tempo que projetava este sonho, já vivia outro, justo no ano de 2mileGalo, entrando no Mestrado. No mês de junho, veio a primeira facada: Disciplina de Curso de Campo Obrigatória – ou seja, nada mais nada menos que 20 dias estudando no campo (leia-se Parque Estadual do Rio Doce, nosso local de alojamento e estudo, próximo à Ipatinga). Até aí, espetacular! O maior e mais importante fragmento de mata atlântica de Minas. Facada 2: Data – de 15 de Julho de a 3 de Agosto de 2mileGalo. AHHHHHHHHHHH! A final! A final! Dia 24 era a final! Dia 26 seria meu aniversário! Sonhava em comemorar o título me embriagando de alegria na praça Sete com milhares de desconhecidos, SÓ QUE NÃO!

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Foto: Daniel Teixeira

No dia 15 de Julho, partia do ICB-UFMG com o coração na mão. Ao mesmo tempo que buscava me descontrair com os colegas, no fundo, aquela dor no coração incessante de que no GRANDE DIA eu não estaria lá. Uma semana se passou até o primeiro jogo. Assistimos no Restaurante do Parque. Cenário pior possível. Um monte de torcedor do lado azul da lagoa me azucrinando, as luzes apagadas por exigência do dono, já que tinha uma funcionária dormindo na cozinha, sem tira-gosto, poucos Atleticanos xiitas como eu... Olímpia 2x0. Baixo astral total.

A semana que se passou foi intensa, crítica. Ao mesmo tempo que me desdobrava nas práticas, elaborações de projetos científicos, apresentações e aulas, o grande dia se aproximava e com ele, a taquicardia típica já batia forte meus músculos cardíacos já amaciados pelo susto contra o Tijuana. Acordei assustado no dia 24 de julho. Mesmo tendo tomado algumas cervejas no dia anterior em uma pequena confraternização, a confusão mental não era efeito do álcool. Olhei pro meu cachecol que ornamentava meu altar alvinegro (minha própria cama) e percebi que era o tão esperado dia da finalíssima. Durante todo o dia, Atleticanos e outros adversários (haviam tricolores, colorados, corinthianos e óbvio, os “outros”) conversavam pouco.Era nítido o clima de tensão. Nove da noite, partimos para o restaurante. Munidos da tradicional superstição, dei logo um jeito de combinar com o dono que queríamos tira-gosto, cerveja, LUZ! Chega de escuridão.... Sentei-me no balcão ao lado de mais dois amigos Atleticanos. A plateia atrás, balbuciava secando cada lance do jogo. Eu escutava, mas ignorava concentrando todas minhas forças no jogo. Tinha até colorado torcendo pelo Galo.

Intervalo. Taquicardia aumentando. Início do segundo tempo: UM SOCO no balcão, 3 dedos roxos e JÔ um a zero. Me contive, ainda tínhamos muito a caminhar. O tempo passava, mas dentro de mim nada me tirava a certeza de que a providência divina agiria em nosso favor. O “sopro divino” fez-nos o favor de esculpir uma das mais belas imagens do jogo – Ferreira escorrega, a zaga recupera e a esperança se fortalece. Logo após o lance, um cruzeirense (meu coordenador, diga-se de passagem) aproximou-se e disse: “Jovem, não tem jeito. Isso é inexplicavelmente sorte de campeão”. Embuído de determinação, agradeci e calei-me voltando os olhos pra tela. Minutos depois, a bola que demorou mais tempo pra cair na história do futebol mundial. Léo Silva cabeceia e ela entra caprichosamente batendo no microfone dentro do gol, sem balançar direito a rede. GOL? GOL? GOL? GOL!!!!!!!! AQUI É GALO PORRA!!!!!!!!!!!!!!! Outros dois socos no balcão, um no chão e mais confiança.

Passam-se os minutos da prorrogação, a expectativa da plateia atrás só aumenta e os burburinhos também. Afastei-me do balcão e de todos. Me ajoelhei no fundo do restaurante e enquanto olhava pro céu rogando misericórdia por toda nossa caminhada, vi os pênaltis, um a um, construindo uma alegria indescritível que tomava os rostos Alvinegros naquele ambiente inóspito.

Depois disso, um barulho, uma trave, O TÍTULO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

CAMPEÕES DA LIBERTADORES, exorcizando 77, contrariando as estatísticas, os secadores, os desacreditados! Vinte e nove anos esperando por isso e justamente no dia em que meu time dominou a América, lá estava eu, há 4 horas de distância de Belo Horizonte, no meio do mato, corpo, perispírito e espírito lavados de alegria.

E de repente, das 26 pessoas que lá estavam, repentinamente, ficaram apenas 4.

O resto? O resto VOCÊS já conhecem a história, porque EU estou até hoje vendo vídeos de festas, gritos e comemorações do título do maior das Américas! Não foi nada fácil ficar fora de toda essa festa, mas se assim for preciso, volto pro mato em Dezembro.

Pro resto da vida, GALO SEMPRE!!!!!!!!!!!!! GALO SEMPRE!!!

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Imagem: Arquivo pessoal