Atlético – Sonhos destruídos

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15/01/2011 - 08:24

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O que vocês verão a seguir exige um estômago forte, pois são cenas que enojam, cenas que causam raiva e revolta em todos os atleticanos.

O vídeo de hoje é do jogo Flamengo x Atlético, pela Libertadores da América de 1981. Sei que é triste relembrar momentos assim, mas não podemos nunca esquecermos dessas horas em que o futebol foi deixado de lado para que interesses da mídia e do governo prevalecessem, afinal o Flamengo é o time do Rio de Janeiro, casa da emissora que o levou no colo por tantos anos e foi essa quem se omitiu quando o árbitro José Roberto Wright fazia sua parte em campo.

O que o governo tem a ver com isso? O Flamengo era o time que a ditadura rotulou como time do povo, assim o povo comemorando as glórias nos gramados, esquecia de protestos ou qualquer outro fato relacionado ao governo. O Atlético era o time de Reinaldo, um ídolo que erguia o punho em forma de protesto contra a opressão desse governo. Um Rei que não cumpriu ordem direta de Ernerto Geisel na Copa de 1978, erguendo o punho num gesto revolucionário. Se isso parece teoria da conspiração nos dias de hoje, quem viveu os dias de ditadura sabe que qualquer campo de influência sobre o povo, era de interesse dos generais, principalmente o futebol.

Voltando ao jogo, vemos uma guerra externa de torcidas. Troca de ofensas e gritos de guerra ecoam no estádio, tomado por tensão, como se houvesse uma premonição que uma catástrofe estava por vir. Nas cabines de transmissão, Luciano do Vale narra o jogo pela Rede Globo ao lado de Telê Santana, técnico que havia sido campeão com o Atlético em 1971. Telê  é calmo e busca ser neutro nos comentários, mesmo tendo imenso carinho pelo Galo e certa rivalidade com o Flamengo, pelos anos em que jogou no Fluminense. Ao fundo, é possível ouvir os demais repórteres em cochichos nas chances de gol do Flamengo.

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O JOGO

Os 2 times criavam boas oportunidades de gol, mas João Leite fez defesas mais difíceis no início do jogo. O Galo tinha dificuldades para sair tocando e por isso passou a apostar em ataques rápidos. Reinaldo sofria marcação cerrada e tinha pouco espaço para finalizar.

Em uma falta simples no meio-campo, cometida por Palhinha, Wright começou a mostrar suas garras em berros e gestos, na tentativa de intimidar os jogadores. Em um contra-ataque do Galo, Éder lançou Reinaldo, mas os zagueiros do Flamengo interceptaram a bola com a mão dentro da área. Ouviu-se um som de apito e o Rei já abraçou a bola para a cobrança do pênalti, mas para surpresa até mesmo dos comentaristas rubro-negros, Wright deu falta para o Flamengo. Nenhum replay ou comentário mais sobre o lance na transmissão!

Um repórter de campo liga seu microfone e transmite a frase do árbitro para Chicão, do Galo: “O José Roberto disse para o Chicão que na próxima vai botar um do Galo para fora.” Alguns minutos depois, o Atlético dominava a partida, tocando a bola com facilidade e chegando diversas vezes ao gol do time adversário.  João Leite já não participava do jogo e o Flamengo dava sinais que não resistiria muito tempo ao trio Palhinha, Éder e Reinaldo. Percebendo isso, José Roberto Wright achou que era hora de entrar em cena.

Em um lance simples, Reinaldo tenta roubar a bola de Zico e é expulso. Diante das cenas seguintes, isso seria irrelevante. Todo o time do Atlético cercou o juiz que girava os braços e gritava com todos, fato destacado por Telê Santana em seu comentário: “Lamentavel! Eu acho que o Zé Roberto está mais nervoso que os jogadores. Quando devia ser o homem de mais tranquilidade em campo.” – e acrescenta – “Veremos mais faltas assim... e veremos se ele usa o mesmo critério.” Luciano do Vale ainda diria que se continuassem reclamando com o árbitro, mais JOGADORES seriam expulsos. Adivinho?

O jogo prosseguiu e antes que Reinaldo deixasse a área do jogo, Éder estava expulso. Rapidamente Vaguinho se vira para  banco e pede para Carlos Alberto Silva tirar o time de campo, pois aquele jogo teria um vencedor a qualquer custo. Não seria preciso essa decisão do técnico, pois a diretoria já havia invadido o gramado.

Reinaldo que havia saído sem dar entrevistas, resolve falar: “Eu não estou entendendo o Zé Roberto até agora. Um juiz totalmente intranquilo dentro da partida.”

A polícia cercava Wright, enquanto o time do Atlético deixava o campo. A torcida ecoava gritos de protesto, enquanto Chicão e Palhinha eram expulsos na confusão. Chicão fez questão de passar em frente ao banco do Flamengo batendo palmas ironicamente para os cariocas, que haviam ganhado uma ajuda gigantesca, para garantir a classificação.

Então Éder solta o que seriam as palavras que melhor definiriam tudo isso: “Um circo! Está tudo armado. É uma palhaçada, um bando de palhaços que armaram isso aí. Esses caras de preto que falam que apitam...”

Em seguida Guzela, Vice-Presidente do Atlético complementa: “O Atlético vai se retirar de campo em protesto à manobra baixa que, infelizmente, o Zé Roberto Wright praticou aqui para a grandeza do futebol carioca.

O carioca Gerson, que comentava ao lado de Telê, deixou de lado o bairrismo para enfatizar a ação clara de manipulação que fora aquela partida. Após o comentário de Gerson, ecoaram os gritos de “Galo” “Galo” no estádio, enquanto a torcida adversário engasgava-se com a própria vergonha.

Após um tumulto enorme, o jogo recomeça com todo o banco de reservas do Atlético expulso, mas ainda assim o Galo vai para o jogo com 7 jogadores. João Leite cai, para que o jogo fosse encerrado, porém mesmo com o massagista em campo, Wright manda prosseguir. O “Rubro-negro do apito” só não esperava que o Galo recuperasse a bola e fosse para o ataque, sendo parado por uma agressão clara do jogador do Flamengo. Wright fingia que nada via e mais uma vez mandava prosseguir.

Até mesmo Luciano do Vale, que até então ignorava tudo aquilo, solta as frases: “Falta feia! Tem que expulsar! Tem que expulsar”

Em um último ato de desespero, Wright empurra os massagistas para fora de campo e manda recomeçar a partida. Como os jogadores não obedecem, o juiz expulsa mais um jogador e encerra o jogo.

E como toda história atleticana tem um final de arrepiar, essa não poderia ser diferente. Quando todos saem do gramado, torcedores incendeiam faixas e cartazes na arquibancada e um silêncio toma conta do local. Então, eis que surge todo o time do Atlético novamente, caminhando em direção ao meio-campo. Param e cumprimentam sua torcida que explode, sabendo que aquele é o time da verdade, da justiça e do verdadeiro futebol.

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Extras

Na semana que antecedia o jogo, Wright dava entrevistas confusas, meio que adiantando desculpas e explicações para as atitudes do jogo, como lembram pessoas que vivenciaram esse ambiente. Para finalizar, não é preciso ser um Sherlock Holmes para desconfiar de algo quando o juiz viajou para Goiás com a delegação do time carioca, hospedando-se no mesmo hotel.

Hoje, Wright trabalha como comentarista de arbitragem da mesma emissora que omite esses fatos por décadas.

Não há como questionar a qualidade imensa daquele time do Flamengo, que talvez vencesse o Atlético nos 90 minutos, mas na dúvida, os cariocas decidiram usar as cartas do baralho extra-campo, como um time paulista o fez em 1977. Mas essa é uma outra cena que lembraremos em outra ocasião.  Fatos que não devem ser esquecidos ou abandonados, histórias tristes que podem ter atrasado nossos sonhos, mas que nos deixaram a certeza de que defenderíamos essa bandeira acima de tudo. Eu sei que no fundo, todos esses envolvidos se moem por dentro, pois todo esse dinheiro e poder que eles defendem, jamais comprarão a paixão que um Atleticano carrega ainda hoje. E todos eles ainda sentirão na pele porque esse é o Galo Forte e Vingador. Aguardem!...