Texto de Murilo Andrade
Mais um capítulo da nossa história foi escrito no Horto. E não fugindo à nossa tradição, foi sofrido, dramático, como sempre foi em 105 anos de amor. Mas fugindo do carma que carregamos, essa Libertadores definitivamente é a competição para quebrarmos os paradigmas.
Esse sentimento de desconfiança, inato ao atleticano calejado, acompanha-nos em nosso inconsciente.
Por mais que tivéssemos todas as condições a nosso favor, exceto o resultado, todos nós, no subconsciente, tentávamos manter uma visão fria do jogo, para evitar grandes frustrações. Ao mesmo tempo, torcíamos e gritávamos no silêncio do nosso peito, como o torcedor mais apaixonado e inconsequente, gritando incessantemente rumo ao objetivo.
O jogo de ontem, a batalha do Horto, caracterizou-se como uma partida que dividiu sentimentos opostos por uma linha tênue, tão fina quanto nossa paciência com o Richarlyson. Andavam lado a lado confiança e medo, alegria e angústia, felicidade e tristeza, desespero e confiança. Qualquer erro, por menor que fosse, poderia nos fazer sucumbir e definir para qual lado caminharíamos.
Sobre a partida, o que eu vi foi um Bernard empenhado como nunca, correndo atrás da bola com sangue nos olhos. Josué incansável calando a minha boca, relembrando os momentos que o fizeram chegar aonde está. Um time que compensou na raça a falta de sorte e a arbitragem (permita-me: Juiz ladrão desgraçado filho duma puta vai se fuder corno!).
Apesar de atuação muito apagada do Tardelli, fiquei desnorteado quando vi que Guilherme e Alecsandro entrariam em campo. Naquela hora me lembrei do carma que carregávamos em nossa história e não conseguia acreditar que o jogo mudaria, mas como bom atleticano, desistir JAMAIS!
A redenção do preguiçoso se fez de forma triunfal, espetacular, bárbara. Não acreditei quando a barbie girl do Newells, capaz de anular o R10 nos dois jogos, despejou aquela bola totalmente sem necessidade, e tão necessária, nos pés do nosso mais sonolento jogador. Naqueles segundos, enquanto ele dominava e ajeitava a bola para o arremate, me veio à cabeça todas as nossas frustrações em 77, 78, 79, 80, 81, 86, 91, 96, 99, 2001, 2012. Sempre lembrado como o time do quase. Naquela perna direita estavam milhares de Joãos, Rafaels Lucas, Murilos e todos os outros chutando juntos, com toda a força que acumularam na vida, esperando o momento da redenção para o qual caminharia, numa velocidade nunca vista antes em sua carreira, o GRANDE Guilherme.
Nesse momento minha garganta nunca gritou tão alto, meu peito nunca se sentiu tão orgulhoso, os ilustres atleticanos desconhecidos ao meu lado viraram meus melhores amigos e, em meio aos abraços e gritos, senti cada vez mais perto nossa classificação à final.
Sinceramente, o gol de ontem, valeu o seu passe de 6 milhões de Euros.
Glorificado seja São Victor. Aquele que faz ateus se ajoelharem como beatos. Aquele que nos da tremenda segurança, defendendo a sua meta assim como nossos pais nos defendem. Atleticano. Que resolveu nosso problema na meta. Naquela cobrança penal de Maxi Rodriguez ele defendeu não só a bola, mas toda a história de cada um que o incentivava. Bem como a honra do Clube Atlético Mineiro, o meu, o seu, o nosso, o de milhões. Um ÍDOLO!
Mas será tudo em vão se cultivarmos arrogância para a final. Nada está ganho. Temos pela frente um tri campeão da Libertadores. E temos a chance de transformá-los em um grande Barueri. Mas não se faz isso com palavras ou arrogância (Aliás, não confunda confiança com arrogância e soberba). Se faz com o nosso jogo, o melhor da América do Sul, jogado francamente e de peito aberto. Estamos na final porra. Vamos pra cima dos caras com ainda mais sangue nos olhos.
Vamos quebrar esse paradigma, esse carma que nos acompanha. Vamos deixar de ser o time do quase. Vamos calar com futebol todos aqueles que duvidaram de nós. Vamos mostrar à eles o cavalo paraguaio.
No momento não consigo encontrar palavras para descrever como eu me sinto. Ser atleticano é diferente de ser torcedor. Somos atleticanos. Deus nos deu essa dádiva. Só faltam 2 batalhas para subirmos aos céus e conquistarmos a America. Por todos aqueles que já se foram e não tiveram essa oportunidade. Pelo Reinaldo, pelo Éder, Pelo Cerezo, Luisinho, Marques, Dadá e todos os outros. E acima de tudo, por nós! Nós merecemos!
Mais do que nunca temos motivos para acreditar. Vamos torcer como se não houvesse amanhã. Eu te amo Galo. Eu confio em você. Eu acredito.
Jogai por nós Galo.


