Texto enviado pelo leitor André Aroeira Pacheco
Nós somos do Clube Atlético Mineiro. Nós somos do Clube Atlético Mineiro. Nós somos do Clube Atlético Mineiro, PORRA! – se podia ler nos lábios de R10 após o gol heroico sobre o ressuscitado São Paulo no Morumbi.
Claro, não foram exatamente essas as palavras do craque, famoso pela timidez com que expõe seus discursos ensaiados nas entrevistas coletivas. Como o choro em entrevista à Maíra Lemos, o riso na cara do Fábio no gol do título no Mineirão ou o desabafo após a conquista da Libertadores, “Aqui é Galo!” foi a forma espontânea e verdadeira de um Ronaldinho enlouquecido começar o hino do Galo.
Como nesta passagem inesquecível e emocionante pra todo e qualquer Atleticano na face da Terra, a orquestra de Ronaldinho - o maior maestro da história da bola no auge de sua carreira - jogando com muita raça e amor, ficará marcada por reproduzir em campo o método infalível de se enlouquecer alguém: o Hino ao Clube Atlético Mineiro.
O hino alvinegro é o ponto alto da expressão do amor Atleticano apesar de este, por ser inexplicável e inteligível, jamais poder ser expressado em sua plenitude. Nesta Libertadores, o hino embalou a torcida quando vibramos com alegria nas vitórias no Horto e em outros quatro países da América, cantado do fundo da alma antes, durante e depois dos jogos, mais forte e cheio de significado que qualquer ‘Eu acredito!’ ou ‘pau no cu do cruzeirô’ #nuncaserão. Não por acaso os últimos capítulos da caminhada alvinegra foram marcados por declarações de apoio de torcidas adversárias recém-convertidas em todo o Brasil, pessoas normais que conheceram o sabor da loucura e da irracionalidade passional do Atleticano em meio a gols impossíveis, lágrimas que saem sem aviso e vitórias inesquecíveis.
E a canção de Vicente Motta foi a forma com que o Clube Atlético Mineiro original, o Galo forte e vingador, foi finalmente apresentado à América, tal qual é conhecido por todo território tupiniquim desde 1908. Ao vencer, vencer, vencer e ainda vencer mais um pouco na primeira fase, o Galo dava show, quebrava recordes e mostrava que não veio a passeio pra Libertadores. Este foi o nosso ideal nos massacres do Horto e nos cinco gols na Argentina, inéditos na história da competição, em que honramos o nome de Minas no cenário esportivo mundial. Nem os 3.600 metros de altitude de La Paz e o descontrole argentino com mais uma derrota humilhante fizeram o futuro campeão da América parar de lutar, lutar, lutar contra juízes, desorganização, bons adversários e contusões inesperadas, que insistiriam em ficar entre nós e a taça por toda a caminhada.
Muita raça e orgulho pra vencer foi o que levou o Galo às quartas. Raça pra expurgar no Morumtri o fantasma de um tricampeão da América já decadente, ressuscitado pela imprensa paulista a gritos velados de “eu acredito”, como se Rogério Ceni de 2005 ainda existisse no lugar do water boy que um dia caiu no Horto. E o orgulho pra vencer estampado nos gritos implacáveis de AQUI É GALO e quando o Clube Atlético Mineiro foi mais uma vez o Galo Forte e Vingador, mostrando que quando tá valendo, tá valendo. Que jogo é jogo e treino é treino. Que caiu no Horto, mais do que nunca, tá morto. Que eô eô,Ronaldinho é um terror. Que Jô,Jô, Jô...
Mas como nunca nada é fácil, maravilhoso e muito menos tranquilo no mundo do Galo, pouco tempo depois da euforia veio o pânico em pleno cemitério Alvinegro, onde todos já vão quase conformados com o sepultamento. O Tijuana caiu no Horto, eles sempre caem, mas não foi nem um pouco fácil de derrubar.
Todo atleticano tem muito orgulho de torcer para o primeiro time brasileiro a excursionar na Europa e colecionar vitórias sobre os campeões europeus, jogando com bolas laranjas em campos brancos quando outros times sequer conheciam a neve brasileira dos planaltos do sul. Mas nenhum torcedor tinha sentido que nós somos campeões do gelo tão vividamente quanto na noite de 30 de maio de 2013. Calafrios. Mãos geladas, frio na barriga e o olhar incrédulo congelado no gesto impiedoso do árbitro, que condenava ao fracasso a mais brilhante campanha de que se tem notícia. Mais fria que aquela noite, apenas uma pessoa, a única pessoa capaz de fundir a pedra de gelo no peito de cada Atleticano e fazê-la escorrer pelos olhos. A bica de São Victor naquela bola, a bola de neve que ousou querer desabar sobre nossas cabeças soterrando de uma vez um sonho e a mística de um estádio sagrado, deixou mais do que nunca uma certeza na torcida mais doente do mundo: o nosso time é imortal.
Muitos dirão que o título foi injusto. Que ganhar nos pênaltis não é ser melhor, “muito menos quando se precisa apagar a luz”. Os mais revoltados dirão que foi comprado, incapazes de admitir o que sabem lá no fundo, que foi o título mais merecido de que se tem notícia no futebol. Merecido não por todo o sofrimento que passa por um Atleticano na vida, cuja melhor tradução vem das palavras de um torcedor à Itatiaia alguns anos atrás: ‘eu queria perguntar pra Jesus Cristo se foi nóis que crucificou ele”. E também não pelo Cuca, apesar de nosso técnico só fazer trabalhar e rezar, nesta ordem – embora ao mesmo tempo em várias ocasiões – e nunca ter posto nada na estante central de sua sala de troféus.
Merecido simplesmente porque fez a melhor campanha da competição no grupo da morte – contra um brasileiro, um argentino e um que joga na altitude – , com 100% de aproveitamento nos jogos que valiam. Nesta primeira fase, o adversário boliviano e a equipe argentina eram os últimos campeões de seus países, enquanto o rival nacional era o maior campeão brasileiro em Libertadores e atual campeão da Copa Sul Americana. No mata-mata, em uma chave complicadíssima que tinha mais três brasileiros, três argentinos e o melhor time da boa liga mexicana, o Galo atropelou novamente o tricolor paulista, em seguida o campeão mexicano e foi medir forças com o time campeão argentino da semana anterior, cujo técnico foi parar no Barcelona. Se a Libertadores se resume a enfrentar os melhores times e os campeões da América, o Galo teve de passar por todos eles, um por um. E passou por todos. No hino do Galo, é a parte que diz que nós somos campeões dos campeões.
E é também a parte que diz que somos orgulho do esporte nacional. O legítimo representante brasileiro, o melhor time do campeonato anterior, aquele do título que escapou por entre os dedos como tantos outros que queriam vir pra BH e foram impedidos. O time que tem a supremacia técnica no continente, a singular capacidade de organização tática de seu treinador e a fé inabalável de uma multidão, e que ainda assim precisou lutar, lutar, lutar e lutar mais com toda sua raça pra vencer os fantasmas do passado e o conhecido rival da final.
O único rival da Copa que não era campeão recente de nada, mas que imaginou o contrário quando abriu boa vantagem no primeiro jogo. Que cantava que ‘la gloria no tiene precio’ e não entendeu que por isso mesmo um estádio abarrotado de doentes se prepararia pra guerra com disposição pra morrer por aquele momento. E que não podia ver que outros seis, oito, vinte milhões estariam lá em espírito; os que não tinham como ir, os que não tiveram coragem de ir, os que foram proibidos pelos médicos de ir e até os que morreram antes... E que muito menos podiam imaginar que Kafunga, Elias Kalil, Roberto Drummond, Telê e milhares de outros atleticanos de espírito vestiriam o manto, entrariam em campo e segurariam pelo pé o atacante adversário quando até o nosso santo goleiro já tinha caído.
Talvez a nota final do hino os faça compreender o que não foram capazes de enxergar vinte anos atrás, e que todo Atleticano nasce, vive e morre sabendo.
Clube Atlético Mineiro,
Uma vez até morrer.
E além.

