Texto enviado pelo leitor Roberto Lopes
(Advertência aos pessimistas e cornetas de plantão, este é um texto de quem acredita no Galo)
Vendo o Galo jogar ao longo do ano, especialmente agora, durante o campeonato brasileiro, e acompanhando diariamente o noticiário, me ocorreu que há alguma coisa muito sutil, mas muito importante, de diferente, neste Galo de hoje, quando o comparamos com os anos anteriores. Na minha opinião, esse ingrediente quase imperceptível é a confiança.
"Isso é óbvio", dirão alguns. De fato, é óbvio, sim. Salta aos olhos que o time está mais confiante. Mas essa confiança “no jogo”, a que o torcedor se refere normalmente, e que os jogadores têm tido, de tentar uma jogada mais ousada, ou um drible a mais, é apenas a parte aparente de um processo que vai muito mais fundo na cabeça de todos – jogadores, comissão técnica, administração. Acredito que a confiança, hoje, é institucional. Vejamos:
Vamos começar do começo. O CT do Galo é "o melhor que está tendo", literalmente, segundo a mídia especializada. Não há, no Brasil, condições físicas de trabalho mais favoráveis do que aquelas que os atletas encontram em Vespasiano. Junte-se a isso uma das melhores (se fazer parte da seleção brasileira for parâmetro, então é a melhor) equipe de preparação física do pais, e isso mostra porque os jogadores do Galo se jogam em campo do início até o final das partidas com quase a mesma energia. Quem já foi atleta sabe que a certeza de estar bem preparado fisicamente é fundamental, porque traz confiança (olha ela aí). Confiança até de que dá para dar “algo mais” e não se lesionar. Basta dar uma olhadela nos fatos: o DM do Galo anda tendo pouco trabalho, se comparado com o de outros clubes ou com o do próprio Atlético do ano passado, por exemplo.
Em segundo lugar, a confiança do técnico e dos jogadores na capacidade técnica do próprio elenco. Ter craque no time faz diferença, sim, e muito mais do que só nos lances geniais. Digo isso porque acredito que a contratação do Ronaldinho deu certo antes do cara entrar em campo. Como o Luxemburgo cansou de dizer nos meses que antecederam a copa de 2010, tinha que levar o sujeito para a Copa, porque ele impõe respeito. E como impõe! Diferenças de opinião à parte no que diz respeito à seleção, alguém duvida que um jogador como esse preocupa demais - e ocupa demais - o meio de campo e a defesa do time adversário? Mina a confiança do outro lado, implanta uma dúvida incontornável na cabeça do defensor, que fica pensando: o que ele vai fazer da próxima vez? Chapéu? O da vaca? Lançamento? Pra quem? Onde? E, do lado de cá, aumenta a confiança, sempre ela. Quem não quer jogar ao lado de um cara que só perde a bola pra um assaltante armado? Que clareia as jogadas com uma facilidade que não se vê em mais do que uns 20 sujeitos no mundo todo (mesmo hoje)? Aliás, neste ponto, vale falar do Bernard: o menino desencantou de vez e já virou um craque. Acredito que Ronaldinho tem um papel nisso, deu moral e confiança ao garoto. Bernard é titular em qualquer time do Brasil, arrisco dizer que (jogando como está jogando) em quase qualquer time do mundo. Isso também aumenta a confiança do time, que passa a contar com dois jogadores que desequilibram e resolvem partidas complicadas, ao invés de um. Ou melhor, dois não, três, porque Guilherme também tem que estar nessa lista.
E os demais? No ataque, temos um tanque que atende pelo nome de Jô e que faz o melhor pivô de futebol de salão na grama que eu já vi. Tem que finalizar melhor, tudo bem, mas, como disse o Capitão Nascimento, "quem falou que a vida é fácil, parceiro"? No meio de campo, onde marcação é importante, temos dois volantes, Donizete e Pierre, que poderiam atender pelos apelidos de Buldogue e Pitbull, sem nenhum exagero. Não passa quase nada. O que passa, aliás, costuma bater e voltar, porque Réver e Léo Silva formam, na minha opinião, a melhor zaga do Brasil. As laterais também estão bem servidas, Junior Cesar foi um achado e Marcos Rocha tem se soltado cada vez mais e é hoje um dos jogadores mais lúcidos e participativos do Galo, como ele já tinha conseguido ser no América. Reparem bem como ele costuma tentar jogadas pouco óbvias: deu espaço, ele avança e enfia o pé de fora da área como fez com o Figueirense. Deu bobeira, ele dá um passe de balãozinho por cima da zaga e coloca o atacante na cara do gol, como fez com o André no segundo jogo da Copa do Brasil com o Goiás.
Em terceiro lugar, o técnico. Eu confesso que, de início, não gostei da idéia de ter o Cuca no banco, mas ele me convenceu. Foi coerente em todos - repito, todos - os momentos desde que chegou, não fez opções malucas, coloca cada um para jogar onde sabe e, na pior das hipóteses, onde precisa (vade retro Dorival e a mania de escalar o Bernard na lateral). Cuca tem uma visão de jogo incrível, o que fica claro pelas alterações que faz e pelo resultado que elas produzem nos jogos. Essa coerência reiterada dá aos jogadores mais confiança. De que há um padrão de jogo no time e, mais do que isso, um padrão na cabeça do chefe. Cada um sabe que, se fizer por onde, vai ter sua chance, e sabe o que tem que fazer para poder ter sua chance.
Isso traz o quarto ponto: banco. O Galo tem um excelente apoio nos que não constam do onze inicial. O próprio Guilherme, que foi determinante na conquista do Mineiro, tem ficado no banco e não porque não tenha condições de estar em campo, antes o contrário. Está sendo mais útil entrando ao longo das partidas, porque o time está muito bem encaixado. Um banco como este dá confiança de que o time não vai cair de produção se vier a perder um, dois, três ou mais jogadores. Tem um time reserva inteiro, esperando para entrar e jogar, que seria titular em metade dos outros times deste Brasileirão (sim, falta um zagueiro, ainda). André e Berola, no ataque, Guilherme, Soutto, Escudero e Richarlyson, no meio, Rafael Marques na defesa, quem contesta?
Ao mencionar o elenco, não falei do goleiro de propósito, porque este é um ponto a parte, o quinto: o Galo hoje tem goleiro! Não é perfeito, porque ninguém é. Mas passa uma confiança... Falando sério, quem se descabela, hoje, vendo a bola ir na direção do nosso gol? A gente já assume que não vai entrar, ao contrário de antes da chegada do Victor.
Sexto ponto: vou chamar de ambiente de governança. Podem usar o nome que quiserem, mas o fato e que a sensação de que aqui se cumpre o combinado é fundamental. Em qualquer organização, família, sociedade, a tranquilidade vem da segurança de que o tapete vai ficar quietinho ali, sem ninguém puxar. Salário em dia é fundamental, sim, que o diga a urubuzada afligida por uma diretoria que já passou da incompetência para pior há algum tempo. Em outras épocas, e em outros times, os jogadores começavam a "piorar" de uma hora para a outra, e não era para menos. Quem joga, ou faz qualquer outra coisa que possa ser chamada de trabalho assalariado, sem saber se vai receber? Em nome desse ambiente, aliás, é que eu discordo de quem critica o Kalil por fazer o esforço que fez para honrar o compromisso com o Dínamo e comprar o André. Independente de ser bom para o elenco, se o cara é banco hoje ou não. É importante demais que se saiba e que se espalhe a notícia de que, no Atlético, fechou, tá fechado. Promessa é divida, pode cobrar. Porque isso atrai jogador bom, atrai técnico bom, atrai parceiro comercial bom, atrai patrocinador bom, atrai tudo de bom (atrai coisa ruim, também, mas cabe à diretoria fazer o filtro necessário). O Kalil errou, nos primeiros anos de sua administração, quanto ao elenco, ele mesmo já admitiu. Não errou, em minha opinião, na administração extra-campo. Não vou nem falar do Diamond Mall porque não é mérito da atual administração, mas registro aqui que acredito que ainda vai nos render muito dinheiro, muito mais do que rende hoje. Mas fato é que Kalil renegociou a dívida do Galo e reduziu drasticamente os juros pagos. Isso mesmo: o Atlético pagou de juros em 2011 3,5 milhões de reais, menos do que todos os outros clubes do recém-implodido Clube dos Treze. Só para se ter uma ideia, os urubus pagaram coisa de R$ 32 milhões, e as marias, no cheque especial, deixaram pouco mais de 8 milhões no banco (os dados estão disponíveis em http://www.lancenet.com.br/minuto/Especial-financas-clubes-ricos-risco_0_712728923.html).
Kalil peitou a Globo quando ninguém mais fez isso, e a lógica era simples: o Atlético faz parte de um grupo, e esse grupo ganha mais se negociar em bloco. Não deu certo, mas ajudou a construiu a imagem de que aqui não tem ninguém fazendo manobra por baixo do pano. Mais: a administração Kalil firmou um contrato para exploração do Independência que trouxe mais estabilidade de receita ao clube (e deu aos torcedores um estoque inesgotável de zoações às agora inquilinas azul-calcinha – fico na dúvida do que vale mais). Trouxe o que havia de melhor em termos de comissão técnica – técnico, preparador físico, preparador de goleiros. Mas, acima disso tudo, a exemplo do que se disse acima acerca do Cuca, Kalil é coerente. Tem uma linha de pensamento que, cada vez mais, se revela simples e direta, e ele a segue à risca: faça-se o melhor para o Galo, e ponto final! E ainda disse que quer exterminar o time azul-calcinha! Eu gostava do cara antes porque me parecia engraçado e falastrão, hoje sou um fã do Kalil administrador e do atleticano.
E, por último, mas não menos importante, a confiança da torcida. É essa confiança que faz com que, de espírito leve, o torcedor cante e apóie o tempo todo, mesmo na dificuldade, mesmo perdendo ou empatando quando devia ganhar. A confiança da torcida é mais superficial, de maneira geral. É aquela a que eu me referi no início do texto, que se refere ao padrão de jogo do time e, principalmente, aos resultados. Jogou bem ou mal e ganhou, ótimo. Jogou bem e empatou, sei não. Jogou mal e empatou, sinal amarelo escuro. Perdeu, já era, lá vamos nós de novo, outra vez vai dar tudo errado, e tal e coisa. É compreensível, até, em vista dos que foram os últimos anos do Galo.
Meu ponto é que a confiança que existe no Galo hoje, como instituição, tem raízes muito mais profundas do que a confiança da torcida. É a diferença da visão de longo prazo e da visão de curto prazo. A torcida enxerga o hoje, a rodada passada, sem dúvida, talvez a semana que vem e no máximo o mês que vem. O Galo, como clube, hoje mira longe. A confiança gerada neste processo de evolução da administração e do clube como um todo não vai variar de um jogo para o outro, de um mês para o outro. Essa resiste mais às intempéries do futebol, porque passa a fazer parte do patrimônio da instituição Atlético.
Eu disse antes que era um texto de quem acredita no Galo. É, sim, um texto otimista. Entretanto, para não deixar dúvidas, e como o óbvio ofusca, repitamos o óbvio: o time não é perfeito, o Jô perdeu gol contra a Portuguesa, o Victor podia ter pego o terceiro gol do Figueirense, o Bernard tinha que ter feito aquele gol contra o São Paulo, não dava para ter perdido ponto pro Bahia em casa, etc; a administração não é perfeita, ninguém sabe o que Maluf faz (acredito que o Kalil não ia deixar ele morcegar o tempo todo), tem que acabar com a praga dos cambistas, deixar essa torcida dormir na fila para comprar ingresso é sacanagem, e etc. Pode dar tudo errado daqui para a frente no Brasileiro e não conseguirmos nada (de novo, pela enésima vez). Pode machucar um monte de jogador e o elenco ir pro DM todo de uma vez. Tudo isso pode, cruz credo! Mas a estrutura, o time, o banco, a comissão técnica, a coerência da administração mostram que, hoje, há um Galo diferente em campo e fora dele, que começa a voltar a merecer a torcida que sempre teve. Se eu tiver que apostar, digo que temos um belo futuro pela frente. Espero que esse belo futuro comece a acontecer já em Dezembro. Eu confio.
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