Diário do Torcedor – Mário de Castro e a Seleção Brasileira

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06/11/2012 - 23:04

Colunistas Lucas Alves - Diário do Torcedor - Mário de Castro e a Seleção Brasileira

Na década de 1930, Belo Horizonte era uma cidade com cerca de 110 mil habitantes. Nessa época, o futebol era o esporte que mais crescia no Brasil, e, consequentemente, em Minas Gerais. O Atlético e o América eram os dois times que se destacavam no cenário belo-horizontino. Em 1929, o presidente da FIFA, Jules Rimet, veio a Belo Horizonte e assistiu o seu primeiro jogo de futebol à noite, no estádio do Atlético. Após a visita dele a Belo Horizonte, a LMDT (Liga Mineira de Desportos Terrestres, que organizava o Campeonato Mineiro de Futebol) passou a colocar vários jogos no período noturno, que sempre ficavam lotados, com todas as entradas vendidas. Os torcedores diziam que “... assistir um jogo à noite é muito melhor. Todos viram como o presidente da FIFA ficou deslumbrado. O homem mais importante do futebol mundial ficou boquiaberto.” Os torcedores aproveitavam o término dos jogos no período noturno para irem aos bares da capital mineira e prosearem com os amigos.

MARIO 120x300 - Diário do Torcedor - Mário de Castro e a Seleção BrasileiraJá naquela época, entendia-se que futebol não combinava com bebida alcoólica, mas o principal jogador atleticano, Mário de Castro, levava uma vida boêmia.  Ele não deixava seus companheiros de futebol beberem em dia de jogo, mas o próprio sempre consumia seu álcool. Mário de Castro era visto como a grande figura do futebol mineiro, e influenciava os torcedores Atleticanos a todo o momento.

Perto da Igreja da Boa Viagem existia o restaurante Guarany, que pertencia a um membro do conselho do Atlético. Sempre que Mário de Castro marcava mais de três gols em um jogo (o que acontecia com frequência), ele oferecia um jantar ao jogador e espalhava a notícia aos torcedores Atleticanos, que lotavam o restaurante para “jantar” com o craque. Se Mário de Castro frequentava o recinto, ele era bom, e os atleticanos tinham que seguir o ídolo. O jogador não era muito fã da comida servida no local, mas sempre ouvia os apelos emocionais do dono, que dizia que “você deve me ajudar, Mário. Se você não vier ao restaurante após o jogo, ele ficará vazio e eu irei tomar prejuízo, podendo até vir a fechar”.

A fama de Mário de Castro ultrapassava os limites de Minas Gerais. No Rio de Janeiro, o atacante era conhecido por não ter piedade ao chutar uma bola, e, por influência de sua fama, foi o primeiro jogador fora do eixo Rio-São Paulo a ser convocado para a Seleção Brasileira (Mário recusou o convite). A justificativa do treinador do Brasil, Píndaro Carvalho, para convocar Mário de Castro era de que simplesmente o Atleticano era o melhor atacante, já que todos entendedores do futebol em Minas Gerais haviam dito isso, e que entendia de futebol quem considerava Mário de Castro o melhor atacante. O treinador também dizia que qualquer jogador que discordasse da opinião dele seria logo desligado da Seleção.

Após muita discussão, o jogador atleticano recusou a convocação para a Seleção por saber que seria reserva de um jogador do Botafogo, que havia marcado apenas 13 gols no ano, enquanto Mário de Castro tinha marcado 40. Um dirigente da CBD foi perguntado sobre a razão de não quererem a convocação do Atleticano, ele foi direto e disse que “nunca ninguém havia provado que Mário era artilheiro como falavam em Minas Gerais.”. Outro argumento usado pelo dirigente foi que na temporada anterior, existiam bem menos times de futebol em Minas Gerais, portanto, Mário de Castro só fez mais gols por conta do maior número de jogos (vale ressaltar que o Campeonato Carioca era ainda maior que o Mineiro).

A imprensa mineira atacava a CBD dizendo que 9 em cada 10 entendedores de futebol queriam a convocação de Mário de Castro. Bastava pedi-lo, para ser um entendedor também. Nos jornais Correio Mineiro e Diário as manchetes das páginas de esportes eram: “Querem ver goals? Venham assistir Mário de Castro no campo do Atlético!” Logo abaixo da manchete, estava escrito em letras menores: “Todas as vezes que Mário de Castro entrou em campo, ele marcou goals. Logo, sempre que ele joga, o Atlético marca goals.”

mário e a filha wanda - Diário do Torcedor - Mário de Castro e a Seleção BrasileiraA discussão ainda durou um tempo e vários insultos foram trocados. Um dos mais repudiados foi uma frase de um dirigente da CBD, que disse que “Mário de Castro não poderia ser convocado por atuar em Minas Gerais, que não pertencia ao futebol brasileiro, que é representado apenas por Rio e São Paulo”.

Para acabar com toda a briga que estava acontecendo nos bastidores, Mário de Castro simplesmente resolveu ir à imprensa e dizer que recusaria qualquer convocação que viesse, pois: “se deixarmos a CBD usar o meu futebol e meus gols, teria que deixar todos usarem. Portanto, declaro que meu futebol é apenas do Clube Atlético Mineiro e de ninguém mais”!

*Imagens: Internet

Lucas Alves

@lucasalves32

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