Fim de semana com chuva, pós-feriado, fim de mês e o salário ficou para trás há um tempão. Essa combinação se uniu ao frio e ao edredom tentando me causar uma amnésia para que eu esquecesse do jogo do Atlético e ficasse em casa. Como um despertador natural, logo que o olho se abre no travesseiro, sai a frase “Hoje tem Galo!”. A sequência de pensamentos é – “Que camisa usar, como será o jogo, quem estará em campo, será goleada?”.
A caminhada até o ponto de ônibus parecia não acabar e ainda tinha o trânsito, momento para lembrar-se do edredom e do travesseiro, torcendo para a amnésia voltar. Após subir o interminável morro da rua Pitangui, parei em frente ao Independência e encostei na parede de um bar para descansar. Graças ao pouco exercício semanal, sentia como se estivesse no topo do Everest, sem oxigênio. “Só um campeonato mineiro, deveria ter ficado em casa...”
Olhei para o lado e vi um senhor com a camisa da torcida Esquadrão Atleticano, aparentemente do início da década de 90. Com a calça e a camisa sujas, boné estragado e acompanhado de dois cachorros, olhava para a torcida e sorria. Morador de rua, ele foi até o estádio só para fazer parte da festa, queria sentir-se ao lado desse time que o traz tantas lembranças boas do passado. Ao receber o pedido de algumas pessoas para registrar fotos ao seu lado, já que se tratava de uma camisa rara, ele topou, desde que os dois inseparáveis cachorros estivessem na imagem. Como prêmio pela foto, ganhou um tropeirão, deu uma última olhada pro estádio, suspirou fundo, jogou a carne pros cachorrinhos e desceu o morro cantando o hino.
Se tivesse dinheiro para comprar o ingresso da partida, ele enfrentaria feriado, chuva, fim de mês e até a Coreia do Norte, se essa ficasse à sua frente, mas estaria com o maior sorriso do mundo naquela arquibancada. A cena me fez entrar pelos portões do estádio com outros olhos. Torci por mim, por ele e pelos cachorros, aplaudindo cada lance genial de Ronaldinho, vibrando em cada gol, tendo a certeza que assistia a um time que fará história.
Encarei cada cadeira vazia naquele estádio como um pecado mortal. No futuro, quando nos despedirmos do último jogador desse time, sei que cada Atleticano traído pela amnésia do travesseiro ficará na torcida para que inventem logo uma máquina do tempo. Um, dois, três, quatro gols. Em algum canto, sei que aquele homem assistia ao jogo, agarrado à sua maior riqueza – dois amigos verdadeiros e uma camisa do Atlético.
Fael Lima
ABRAÇO NAÇÃO!





