O jogo que a Maria Pretinha não viu

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18/01/2012 - 04:32

maria pretinha rezando 300x168 - O jogo que a Maria Pretinha não viuMuitos talvez não conheçam a Maria Pretinha, uma torcedora folclórica do Atlético e das mais fanáticas que já vi com a nossa camisa. Já vi a Maria em fila de ingresso, na porta do Mineirão, pelas ruas de Bh, colada na grade durante o jogo e até em dia de eleição para Presidente do Clube. Já catou latinhas para conseguir pagar seu carnê de sócio-torcedor e planejava sua vida de acordo com as tabelas dos campeonatos. Sempre mais exaltada, colocando a mão no peito, como se o coração não aguentasse mais tanto amor por esse Galo Forte e Vingador.

Como nunca revela a idade, nunca a perguntei se ela tem filhos ou marido, mas já presenciei a dona Maria pendurada no pescoço do repórter Thiago Reis, da Rádio Itatiaia. Acho que seu único e grande amor nessa vida é mesmo o Galo.

Em alguns jogos, como a goleada de 6 a 1 sobre o Flamengo, se a Maria Pretinha sumisse, o primeiro lugar que a procuravam era nos hospitais próximos. Nesse caso, próximos ao estádio, pois a idade não impede que ela vá onde o alvinegro joga.

Foi assim em 1986, no Maracanã, onde Galo e Botafogo fariam uma partidaça. Havíamos faturado o Mineiro e lutávamos pelo título do Brasileiro, o que criou uma empolgação gigante na torcida, que foi para a estrada. Uma das janelas dos muitos ônibus carregava o olhar da Maria, longe, imaginando a festa, dedos cruzados e uma reza que ela criava a cada viagem. Ah se o veículo chegasse a 180, como os batimentos cardíacos da Pretinha.

Finalmente o Maracanã, gigante, lindo, mas que para a dona Maria não era nada, já que pra ela só existia formosura no seu Mineirão. Nem se preocupou em admirar o ponto turístico carioca, quis entrar logo, pois o jogo havia começado. Ingresso na catraca, poucos passos e gol do Botafogo. Dona Maria sentiu as pernas formigarem, mas prosseguiu. Ao avistar o gramado, gol do Botafogo e a Maria Pretinha não aguentou, desmaiando ainda na rampa.

“Acorda Maria, acorda!” – Diziam os amigos, já no atendimento médico do estádio. Aos poucos ela foi abrindo os olhos e ainda no primeiro tempo ficou de pé. Suas primeiras palavras foram “Quanto está o jogo?”. Um desavisado respondeu no fim do corredor. – “Está dois a dois e só dá Galo!” – E lá foi a Maria pro chão novamente.

Dessa vez o apagão foi mais demorado. Os amigos revezavam entre o jogo e a salinha de atendimento médico. Somente quando a partida acabou é que a Maria pôde levantar-se e caminhar direto para o ônibus. “Terminou empatado Maria”, diziam os amigos para acalmar a atleticana. Porém, para sair do estádio, o grupo passou pelo placar eletrônico que ainda estampava, BOTAFOGO 2X4 ATLÉTICO. Pimba! Dona Maria Pretinha no chão novamente.

Após deitar no ônibus, só acordou em Belo Horizonte, onde já estava novinha (ou quase). Por ficar desacordada praticamente a viagem toda, até hoje a Dona Maria Pretinha não sabe se aquele jogo aconteceu realmente ou se foi um sonho. Alguns dizem que ela duvida até mesmo se a vida dela é real ou um sonho, tamanha é a felicidade em cada viagem, em cada amigo, em cada momento ao lado do Clube Atlético Mineiro. Enquanto tivermos uma Maria Pretinha na arquibancada, esse Galo continuará imortal.

*O jogo citado acima ocorreu no dia 5 de outubro de 1986. Os gols do Galo foram marcados por Everton, Sérgio Araújo, Jorge Valença e Reinaldo Xavier.

ABRAÇO NAÇÃO!

Fael Lima

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