Uma massa para todas as raças

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23/10/2010 - 03:47

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Por Renato Sasdelli

Existem experiências na vida que ficam forjadas na alma, permanecem na memória durante toda a existência. Vivemos tantos momentos, mas alguns são especiais, valem a nossa passagem pelo planeta.

A vivência, o aprendizado adquiridos nestas situações especiais, por diferentes razões, em diferentes ocasiões, ressurgem, emergem da memória, de quando em vez.

Aconteceu em um domingo, durante um almoço, na casa de meu avô paterno. Estava a família reunida, completa, tios, primos. Não somos muitos, família pequena. Era dia de clássico, sairíamos dali para o campo, juntos...

Meu avô contava histórias da Itália, narradas pelo pai dele. Eu sempre ouvia com atenção. Em dado momento, um primo, pouco mais velho do que eu, fez uma pergunta que me deixou estarrecido: Vô, somos de origem italiana, por que não somos cruzeirenses?

Lembro que senti um enjôo forte, tinha comido muito macarrão, por um instante pensei que fosse vomitar, mas consegui controlar. Acho que meu estômago estacionou sua atividade. Toda a energia do meu corpo voltou-se para os ouvidos, meu cérebro necessitava de uma resposta firme, lógica, para a indagação do meu primo mais velho.

Temi que não houvesse resposta razoável para o questionamento. Temi que meu avô concluísse: “Ué... Nunca pensei nisso... Não que é que você tem razão? Vamos para o outro lado da cidade hoje à tarde, ficar no lado fresco do Mineirão”.

Aos meus seis anos eu já era plenamente alvinegro, se é que seja possível alguém o ser apenas parcialmente. Adorava pertencer a cachorrada (queria ser veterinário, quando criança). Não me imaginava na bicharada, sentado, torcer pela defesa de um time atacado por Reinaldo e companhia, seria um pesadelo.

Ansioso, olhei para o meu avô, esperando a resposta salvadora. Para ser franco, acho que consideraria qualquer resposta plenamente satisfatória. Controlava para não dar um tá ligado no meu primo mais velho.

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Foi minha vó, com a voz doce e segura, quem trouxe a luz para mim e para meu primo. Narrou a história que os outros da família já conheciam.

Explicou que a origem alvinegra do clã Sasdelli teve início na forte amizade de dois garotos: um negro, outro branco.

Meu avô passava os dias na loja do pai, vendendo tecido, em companhia do Zé, o  amigo negro, companheiro de todas ocasiões, fantasias, descobertas e  traquinagens.

Essa parte eu já sabia: a amizade, irmandade escolhida, de longa data, que durou duas vidas. Mas só ali conheci a história do primeiro baile e sua relação com a origem alvinegra de minha família.

Iria acontecer um baile no palestra. Meu avô obteve do pai a autorização para participar. Estava empolgado, mas inseguro de ir sozinho. Combinaram de irem juntos. Os dois amigos empolgados com a novidade. Planejaram os detalhes: trajeto, horário, vestimentas, meu avô emprestaria um terninho para o tio Zé.

Sei que alguns já imaginam o fim da história... Quer dizer, não o fim, mas a parte triste dela.

Hoje o cruzeiro possui simpatizantes de todas as origens, de todas as classes sociais, mas na década de 20, o palestra era um time da colônia italiana, de torcida e eventos restritos aos italianos. Então, na porta do baile, explicaram ao meu avô e ao tio Zé que, naquele baile, o segundo não poderia entrar, por não ser sócio, por não ser italiano.

Imaginem a frustração dos dois garotos. Consta que o tio Zé queria que meu avô Osvaldo entrasse, que lhe depois contasse como foi, que aproveitasse o baile, que não haveria problema, coisa e tal...

Porém meu avô se recusou a entrar, se o Zé não podia entrar, ele também não entraria.

Voltavam os dois cabisbaixos para casa... Quando o tio Zé lembrou-se que acontecia, também na cidade, um baile do Atlético, um baile popular, sem o requinte e a sofisticação do baile do palestra, mas que neste baile poderiam os dois entrar, sem restrição...

Para lá foram, e tiveram a noite de descobertas que tanto esperaram.

Fiquei sabendo, depois, não pela narração de minha avó, mas pelo meu próprio avô, que naquele baile o vovô “pegou” a primeira morena...

Na volta para casa, meu avô jogou fora a carteira de sócio do palestra, o que lhe acarretou uma surra de bengala do pai.

Assim, ali nasceu a “dinastia” alvinegra da família Sasdelli. Depois daquele baile, vieram outros bailes, vieram outras morenas, vieram os jogos, com Said, Jairo e Mário, a trinca maldita...

Desde então, Sasdelli cruzeirense tem nascido morto... Somos todos Atleticanos, graças a Deus...

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