NAQUELE TEMPO

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28/08/2014 - 01:04

Foto: Bruno Cantini

Foto: Bruno Cantini

 Texto de Caio Ducca

Eu era criança, mas me lembro bem. A camisa listrada do Galo era o segundo uniforme da escola. Não apenas da escola onde eu estudava, mas de todas as escolas e colégios, públicos e particulares, de Belo Horizonte. Nas praças e nos clubes, quando a gente jogava nossas peladas, repetíamos a escalação do time do Atlético. Que era o time de todo mundo.

Quando o Galo conquistava um título (e isso acontecia sempre), a cidade mudava. Tinha festa na rua, o Centro parava. O céu recebia mais foguetes que em noite de Reveillón. Outros times de Minas até podiam levantar troféus, mas a comemoração não saía do plano esportivo. Com o Atlético era diferente: em todas as casas, igrejas, nos hospitais, nas obras, nos estúdios de rádio e televisão, dentro dos ônibus, das faculdades, dos conventos e dos palácios o assunto rendia, rendia, não acabava nunca. O Galo tinha relevância – envolvia até gente que nem sabia direito o que era futebol.

A Massa tinha tanta força que emocionava o Brasil inteiro, mesmo sem ter a preferência da imprensa nacional. Seus cantos eram repetidos por outras torcidas. Eram usados para apoiar a Seleção Brasileira. Seleção de futebol, Seleção de basquete, de vôlei. A fé alvinegra era respeitada até por quem não gostava do Atlético.

Mas em Belo Horizonte, em Minas Gerais, era difícil não gostar do Galo. Do time do povo. Os rivais sabiam nosso Hino de cor. Aliás, a palavra “Galo” era pronunciada logo no início da vida, assim como “Mamãe” e “Papai”. As crianças cresciam atleticanas. Depois iam aprender sobre futebol e até decidir para quem torcer.

Torcer para o Galo, fazer parte da Massa, sempre foi mais legal. Tínhamos mais gente, mais cantos, mais lágrimas, mais risos, mais choro, mais alegrias. As maiores emoções sempre foram atleticanas. Quando eu era menino, esperava a semana inteira para ver o carnaval da Charanga do Galo após outra vitória. Se a vitória não vinha, a gente culpava a falta de sorte ou a falta de hombridade dos árbitros. Porque nosso time era tão aguerrido que nunca nos fazia raiva ou vergonha. Os jogadores eram nossos heróis. Faziam parte da nossa família. E sempre correspondiam com mais razões para comemorar. Renovavam-se os motivos para amar o Atlético.

Eu era criança, mas não me esqueço: nem havia discussão sobre quem era maior, mais importante, mais glorioso. Sobre quem reinava nos nossos corações. Ninguém nem dava bola para pesquisas sobre torcida, desnecessário exercício matemático. Mesmo assim, os números confirmavam: era o Atlético Mineiro, o Galo Forte Vingador. E ponto final.

Gabriel Ducca, nascido em junho de 2014.